Junho 25, 2009

Podemos estar em silêncio, o cio frio,
no entanto algo fleme, inflama, infuna.
No entanto, algo incomum move.
A poesia, que é incomum.
A fartura do desejo, que é incomum.
A fartura de Whitman,
que é incomum!
Que o Ronaldo Costa Fernandes me corrija,
se erro.
Que o Ronaldo Cagiano me corrija,
se me engano.
Que o Vassil Oliveira me corrija,
se vacilo!

OH! MEU CAPITÃO! MEU CAPITÃO

Walt Whitman
Versão: Salomão Sousa


I.
Oh! Meu capitão! Meu capitão! nossa fatal viagem é finda;
O barco venceu as tormentas, alcançados os prêmios que buscávamos;
O porto está próximo, ouço os sinos, o povo se exulta;
Embora os olhos sigam as firmes quilhas, a embarcação sinistra e audaz:
Mas oh! coração! coração! coração!
Não derrame nem uma mínima gota
No convés onde meu capitão jaz
Estirado frio e morto.

II.
Oh! Capitão! Meu capitão! Levanta e ouça os sinos;
Levanta — por ti a flâmula flana — por ti a corneta trila;
Por ti buquês e grinaldas com fitas — por ti as multidões nas margens;
Por ti eles chamam, se aglomeram, os rostos ansiosos à procura;
Oh! Capitão! querido pai!
Passo embaixo de ti este braço;
No convés é um sonho que jaz,
Onde te estirastes frio e morto.

III.
Meu capitão que não responde, os lábios pálidos e tranquilos;
Meu pai que meu braço não sente, está sem pulso e vontade;
Mas o barco, o barco ileso ancorou, a viagem feita e conclusa;
Da terrível viagem, a vitória do barco, os objetivos alcançados;
Exultem-se, oh! margens! e toquem, oh! sinos!
Mas eu, com passo silente,
Atravesso onde meu capitão jaz
Estirado frio e morto.

Junho 10, 2009

Sutis declarações sobre a poesia de Salomão Sousa

Sua poesia é esse jeito, esse movimento, a funda estocada no coração das emoções.
Sérgio Campos (Nova Friburgo-RJ)

Para começo de conversa, o poema “Safras” é sensacional: é lindo de morrer, enxuto, na palavra exata.
Zila Mamede (Natal-RN)

… gosto desse movimento pendular, oscilando entre o lirismo confessional e o discurso cheio de indignação; justa revolta e amor pela vida, bem dosados e temperados.
Uilcon Pereira (Araraquara-SP)

Caderno de Desapontamentos, muito belo, sensível e pungente —só lamento ter somente agora conhecido a sua poesia, que revela um poeta consciente do poder da palavra, sem o ouropel e a sacralização acadêmicos.
Assis Brasil (Teresina-PI)

...gostei do seu modo de garimpar os territórios quase inacessíveis da metáfora, sobretudo quando aliada aos aspectos da miséria social e do cotidiano nem todas as vezes abordável, poeticamente.
Jorge Tufic (Fortaleza-CE)

Já nem sei se estou conseguindo esplicar-lhe minha emoção em ler seus poemas de Criação de Lodo, suas pérolas, sua baba, sua metáfora, seu borboletear.
Manoel Lobato (Belo Horizonte-MG)

Criação de Lodo é um livro primoroso. Dá a dimensão do talento do autor e também da sua formação enquanto artista. O texto introdutório —ensaio? metapoema— credencia o autor como um autêntico poeta que compreende o valor e as razões do seu ofício na modernidade. Num momento em que a poesia brasileira parece morta, o Salomão Sousa de Criação de Lodo é enfim um dos poucos que parece saber o que faz.
Osvaldo Duarte (Vilhena-RO)

A criatividade que contém seus versos; a beleza de seu estilo; virilidade de suas metáforas; o canto da terra a exalar o cheiro agreste da pureza; todas essa virtudes o tornam único.
Mário Celso Rios (Barbacena-MG)
O alvo insólito se esconde em abril.
A sólida ferrugem nos fuzis.
Os desamparadas informes
de acolher as arestas do esquecimento.
Ou as raízes da névoa quieta
que barram a procura de alguma porta.

Alguma luta se esconde em abril.
Com a lábia livre, com a alegre
esperteza de iludir a frágil fresta.
O vencimento do tardio ódio,
a fraqueza da reza sem milagres.

Há um ventilar de madureza,
de alguém que talvez nem venha
a entrar nalguma névoa,
a pisar nos gozos de alguma nave.
Montado o palanque. A besta imolada.
A gravidez depois fictícia.
Alguém limpa a ferrugem em abril.

@ Salomão Sousa

Maio 25, 2009

Canário na Janela


Muitas abas paralelas
e eu uma delas
Talvez eu fosse o canário
a janela
e tanto não me abro
e tanto não me amarelo

Perdi o Tributo ao Poeta, da Biblioteca Nacional de Brasília, em homenagem à bela poesia de minha amiga Lina Tamega. Imerso no mundo do excesso da comunicação e não tomei conhecimento do evento. Nem email, nem telefonema, nem fofoca de janela, nem sinal digital, nem duas frases nas vastas colunas literárias dos jornais de Brasília. E a poesia da Lina tem mais para dizer do que duas linhas.

Ai! quantos anos terei de viver para terminar a leitura de las Memorias de Ultratumba, do Chateaubriand francês?

Mas não era nada disso que eu queria dizer para vocês. Ou para mim. Ou para ninguém. Num blog a gente nunca sabe a quem diz, a quem fala. Ou a quem cala.

Só queria lembrar o lado humano, dentro de minha descrença diante de uma juventude que perdeu toda possibilidade de lidar com o humanismo.

Assisti o filme Faces, de Cassavetes, de 1968. Há muito um filme não me entristecia tanto. Há quarenta anos, talvez com consciência ou por um condão, Cassavetes teve a mágica de enxergar nossos dias. A desagregação dos valores. O fim do pudor. Só mesmo o canário para amarelar.

Ainda tem mais. Uma citação de Bertrand Russell, tirada de uma citação de Chomsky:

"Aqueles cujas vidas dão frutos para si mesmos, para seus amigos ou para o mundo são inspirados pela esperança e sustentados pela alçegria: eles veem em sua imaginação as coisas que podem vir a ser e o modo como se materializam. Em suas relações privadas, não se angustiam com uma possível perda de afeto e respeito, assim a recompensa chega por si mesma, sem que a procurem. No trabalho, não são assombrados pela inveja dos concorrentes, mas estão, isto sim, preocupados com o que tem de ser feito. Na política, não perdem tempo e paixão defendendo privilégios injustos de sua classe ou nação, mas almejam fazer do mundo um lugar mais feliz, menos cruel, menos cheio de conflitos entre cobiças rivais e mais povoado por seres humanos cujo crescimento não tenha sido tolhido e atrofiado pela opressão."

De quantos Bertrand Russell precisamos? E nesta geração não teremos outro e muito menos jovens para lê-lo!

A única esperança, Chomsky, é de que realmente o que vemos azul hoje possa ser visto verde amanhã.

Maio 10, 2009

Clara Ghimel

O acaso do acaso, caiu-me um disco nas mãos assim a Oriente do oriente. De Clara Ghimel — acredito que baiana. Ela reuniu poemas de portugueses, em arranjos bem percussivos, apesar de muitas guitarras acústicas leves. A voz clara que permite realce aos versos.

Apenas um comentário: ao primeiro verso do poemas "Pirata", de Sophia de Mello Brayner Andrade:

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Não é algo imensamente assustador?
Não sei se é a sabedoria do poeta ou se já é o toque do egocentrismo sobre o homem que antecede o poeta. Assusto-me quando essas sobreposições acontecem. Antes, a força da natureza intimidava e a força do homem existia para dominá-la. Agora, sem força e sem domínio, mas apenas incendido de desprezo, o homem já se julga de posse de tudo — com desprezo.

Clara, parabens!

Abril 21, 2009

A vida é sonho

DEIXO AQUI MINHA PRIMEIRA TENTATIVA de tradução da parte famosíssima da peça de Pedro Calderon de la Barca. Busquei manter a rima e o andamento dos versos. Não quero rivalizar com a tradução de Renata Pallotini (ver edição da Hedra), que modernizou alguns versos e furou umas duas rimas. Acredito que, para melhor compreensão da fala de Segismundo, é necessário sempre citar o fecho da fala anterior de Clotaldo, pois é deste fecho que surge todo o razoamento posterior:

Clotaldo

(...) ainda em sonhos
não se perde em fazer bem.

Segismundo

Certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois talvez ainda sonhamos.
E assim faremos, se estamos
em mundo tão singular
que viver não é mais que sonhar,
e a experiência, risonha,
diz que o homem que vive sonha
aquilo que é até despertar.
Sonha o rei que é rei, e vive
com este engano mandando,
dispondo e governando;
e aquele aplauso, que, breve,
recebe, no vento se escreve
e em cinzas o converte
a morte: desgraça forte!
Existe quem tente reinar
vendo que irá despertar
dentro do sonho da morte!
Sonha o rico em sua riqueza,
que mais zelos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e sua pobreza;
sonha o que inicia a destreza;
sonha o que afana e pretende;
sonha o que agrava e ofende;
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
e que é assim ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
destes grilhões carregado
e sonhei que em estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida?: um frenesi.
Que é a vida?: uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
e o maior bem é bisonho,
que toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.

Abril 20, 2009

O sempre novo Clint Eastwood! Ah razão cínica

Clint Eastwood declarou que Gran Torino, seu mais recente filme, é sobre a tolerância. Mas é bem mais do que a tolerância, pois envolve questões raciais, de violência com a juventude, da dívida americana com aqueles que foram atingidos por suas invasões. A degringolada da família. Ele vem nos dizer que alguém precisa estar pronto para morrer para ver se a coisa muda. Trata-se de um filme que tem de virar cardápio do debate em sala de aula e nos comícios públicos. Trata-se de um filme que me faz voltar a refletir sobre a importância da realidade na obra de arte. Até onde a obra de arte tem de estar associada ou dissociada da realidade? Clint Eastwood sempre está dentro da realidade, com a sua obra (de grande arte).
Como serve para mim e mais e demais, registro aqui um trecho da obra de Bertrand Russell:

"Aqueles cujas vidas dão frutos para si mesmos, para seus amigos ou para o mundo são inspirados pela esperança e sustentatos pela alegria: eles veem em sua imaginação as coisas que podem vir a ser e o modo como se materalizam. Em suas relações privadas, não se angustiam com uma possível perda de afeto e respeito, preferem dar afeto e respeitar de maneira livre, assim a recompensa chega por si mesma, sem que a procurem. No trabalho, não são assombrados pela inveja dos concorrentes, mas estão, isto sim, preocupados com o que tem de ser feito. Na política, não perdem tempo e paixão defendendo privilégios injustos de sua classe ou nação, mas almejam fazer do mundo um lugar mais feliz, menos cruel, menos cheio de conflitos entre cobiças rivais e mais povoado por seres humanos cujo crescimento não tenha sido tolhido pela opressão."

Ah Boaventura! que diz mais: a "razão cínica" justifica toda artimanha de privilégios.

Abril 18, 2009


Sempre há um clássico que ainda não foi traduzido em nossa língua. Sobretudo aqueles com maiores extensões. Certamente ainda teremos de esperar muito pelas Memórias de Chateubriand, pela biografia de Samuel Johnson, por Boswell, e as próprias biografias de escritores, de Samuel Johnson. Enquanto isso, valho-me das edições espanholas. No ano passado, ou antes, não estou seguro, circulou por aqui Peregrinação, do português Fernão Mendes Pinto.O mercado editorial brasileiro se preocupa demais com obras já consagrados em nossa cultura (caso de Tolstoi, Dostoievski, Kafka etc, se é que grandes escritores são etc), e outros também relevantes não estão nas prateleiras. Nem as Confissões, de Rousseau estão nas prateleiras — e precisam de tradução nova, que correspondam, pois as frases curtas de Rachel de Queiroz, numa linguagem nordestina, não corresponde à elegância do período da obra.
E temos de baixar o preço dos livros! O privilégio das grandes editoras às grandes redes estão matando as pequenas livrarias. E isso é um tiro no pé: as pequenas livrarias ajudam na formação de leitores, pois elas ficam ao lado das casas, no caminho das pessoas, com um amigo no balcão... Quanto mais leitores melhor para todos, inclusive para a qualidade da cidadania.
Não há cidadania em deixar a carreta na entrada de acesso à via.
Mas, enquanto isso, não há cidadania em não contribuir com a divulgação da série de tributos ao poeta, promovidos pela Biblioteca Nacional de Brasília.
A próxima homenagem é dedicada a Ronaldo Costa Fernandes, por Paulo José Cunha, no dia 24 de abril, às 19h. Se os meios de comunicação não tiverem os telefones da Biblioteca, e dos escritores para os contatos, é só me procurar por este blog, e eu passarei com o maior prazer.
Bom feriado a todos nós, com poesia e cidadania.
Já que os blogs têm registrados divergências com o novo romance de Chico Buarque, eu também assim procedo. Chico Buarque tem todo direito de escrever um romance ruim, até memso para não ficar ocioso, manter a vida em operandi. Mas que o romance não funciona, não funciona. Não tem leimotiv, não tem qualidade estilística, e nem mesmo... Basta. Sei que há muito eu não interrompia a leitura de um livro. O leite está derramado.Mas, a música, só se expande.

Abril 15, 2009

Brasigois Felicio

Após receber a nossa tradução de FROST,
o amigo Brasigóis felício fez uma paráfrase
do poema A estrada por trilhar:


Seguir os caminhos do conhecido
é afogar no comido
fingindo ser renovo
aprender o sabido

Seguir a senda estreita
é habitar-se do inaudito
vazio-cheio do Absoluto

Se Deus é um longo intervalo,
não há música sem silêncio

No contentamento de aceitar e celebrar
viajam os que são leves de bagagem
por isto passam e esquecem

Aceitar o agora que nos veio
sem forçá-lo a nos oferecer respostas
pode fazer toda a diferença.

Abril 11, 2009

Volta ao médico

Retornei a médico para complementar os exames com uma colonoscopia.
Canais limpos, abertos pela injeção de ar. Apenas dois pequenos sangramentos talvez provocados pela teimosia da sonda. Duas horas de cólicas, mas a tranquilidade de seguir com um intestino saudável, colorido, redondo como uma foto de lua em torno do escuro.

Abril 02, 2009

Um amigo do Ronaldo Costa Fernandes pediu informações sobre a existência de livros com traduções de Robert Frost. Chegamos a localizar uma tese que identifica todas as traduções de Frost que já foram feitas para português, além de trazer traduções próprias. Dei uma mexida na tradução do poema "A estrada sem trilhar", que sempre recebeu outros títulos. Não dei preferência às rimas, mas uma certa repetição interna. Vamos ver se alguém gosta.

A ESTRADA SEM TRILHAR

Robert Frost

As estradas se abriam no bosque amarelo
e eu lamentava não seguir as duas,
por ser um viajante só, demorei-me
a olhar à distância por longo tempo
a que sumia ao dobrar-se no matagal.

Quando tomei a outra, igualmente bela,
aos seus méritos a pedir desculpas;
para o viajante oferecia relva;
ainda que por ali tenham passado
outros mais que a tomassem na viagem.

Naquela manhã elas se estendiam
com as folhas sem manchas de pegadas.
Ah! guardei a primeira para outro dia,
ciente que uma estrada leva a outra
duvidei se ali outra vez retornaria.

Vou contando isso entre suspiros,
em distante ano num lugar distante:
duas estradas se bifurcavam, e eu —
uma estava sem trilhar e esta eu tomei
e foi o que fez toda a diferença.

Março 13, 2009

Algumas informações esparsas. Estive no médico na tarde desta sexta-feira. Se eu fosse romancista ou contista, criava um personagens e construía uma narrativa com as hemorróidas luminosas em sangue. Lembro-me de meu avô fazendo, às escondidas, as suas lavagens na bacia de flandres. Estive sobre a maca em posição fetal, e agora preciso fazer menos leituras enquanto permanecer no sanitário.
Não consegui ainda iniciar a leitura da História do império, de Tobias Monteiro, na edição da Itatiaia. Fiz a encomenda pela Livraria da Rodoviária, mas os distribuidores não têm mais interesse em fazer entregas para as pequenas livrarias. São mais de vinte dias e não consigo ser atendido. Só as grandes redes conseguem atendimento rápido, pois são tratados com prioridade e com bons descontos. Precisamos de estudos para reversão deste quadro, pois as livrarias pequenas não poder ser extintas e ainda outras precisam ser motivadas a surgir.
Terminei a leitura da novela Terra sonâmbula, de Mia Couto. Não me agrada o excesso de inversões vocabulares do moçambicano, nem o excesso de neologismos para surgimento de verbos já existentes. Mas é uma narrativa preciosa em que o próprio texto se cristaliza em poeticidade. Moçambique aparece com todas as suas contradições. Realmente a literatura não existe sem o real.
Refiz um verso de minha tradução de Antonio Machado. Pois "marcas dos pés" deve ser substituído por "pegadas". Algumas de minhas traduções saem neste domingo no Jornal Opção, conforme promete o poeta Carlos Willian.

PROVÉRBIOS E CANTARES XXIX

Antonio Machado

Caminhante, são teus rastros
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
o caminho se faz ao andar.
Ao andar se faz o caminho,
e ao voltar o olhar para trás
vê-se a trilha que nunca
mais há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho
mas só pegadas no mar.

Março 03, 2009

Quem quer ser milionário?

Já que deixou de ser necessário o conceito de verossimilhança, Quem quer ser milionário? é um bom filme. Vale-se de situações velhas — mas também não podemos considerar que a história é nova, pois Bombaim está lá há algum tempo — para entrelaçar situações sociais que nunca envelhecem. Os programas de perguntas e respostas deixaram de existir desde os idos de 70, mas outras loterias estão aí no mundo todo para enganar os indivíduos, que sempre creem capazes de sair do real através de um sorteio grande. No filme é possível sair? Talvez, pois Jamal guarda fidelidade. A fidelidade — numa época em que até a ejaculação ocorre sem nenhuma promessa — merece ser premiada. Não, não jogo este filme no limbo. Há agilidade nas cenas, profundidade na fotografia, e uma música arrebatadora, quente. Uma música que soma o jazz fusion com a música oriental ou é o próprio jazz fusion. Ou clássico fusion. Só não é mais bonito porque a miséria sempre quer ofuscar o encanto. Pela abordagem de questões sociais — e pela fidelidade — o filme Quem quer ser milionário? merece o nono Oscar.

Fevereiro 24, 2009

Antonio Machado

Total apatia literária no transcorrer deste carnaval. Para não perder o pique,
ou o samba, no último ressoar do tambor, deixo aqui a tradução abaixo (sempre traduziram erroneamente "estelas" por "sulcos", quando são "marcas de alguém que pisa" para fazer contrapartida com o primeiro verso, pois "huellas" também não são "passos", mas os "rastros". Os "passos", se Antonio Machado tivesse ampliado o poema ou composto outro, equivaleriam à "caminhada", já que o caminho são os "rastros" no chão, na terra, sei lá. Os "passos" são o ato de caminhar, e os "rastros", de marcar a terra, isto é, abrir caminho):


Antonio Machado
Provérbios e cantares XXIX, de Campos de Castilla

Caminhante, são teus rastros
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
o caminho se faz ao andar.
Ao andar se faz o caminho,
e ao voltar o olhar para trás
vê-se a trilha que nunca
mais há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho
só marcas dos pés no mar.

Fevereiro 18, 2009

Látego

O escritor goiano Brasigóis Felicio publicou a crônica “Não terminar a carta” no jornal Vermelho, de Goiânia , e anuncia que a mesma será republicada em O Popular no próximo domingo. A crônica complementa um texto-crônica de nosso livro Momento crítico.

Terminei de ler o livro “El sueño de los héroes”, do argentino Adolfo Bioy Casares. Exemplo de narrativa matemática, onde todos os diálogos se encaixam nos episódios centrais. O livro ainda não tem tradução brasileira. Só para relembrar uma postagem anterior sobre a violência contra cavalo que postei aqui no blog, aqui neste romance ela se repete:

Cada puchão das rédeas era mais brutal que o anterior. (...) Os puchões tinham machucado a boca do animal. Rasgadas pelo freio, as comissuras da boca sangravam. Um abismo de calma incômoda parecia refletir-se na tristeza dos olhos. (...) Os olhos do cavalo pareciam desorbitar-se num frenesi de pavor. Valerga voltou a levantar o látego (...)”

Não vou traduzir as duas páginas, senão nenhum editor e nenhum leitor vai se interessar na edição do livro no País.

Fevereiro 16, 2009

Participamos da enquete que o poeta Carlos Willian fez para a revista Bula, digital a partir de Goiânia, para identificar a lista dos dez livros preferenciais que alguns autores já leram. O resultado pode ser conferido pelo resultado geral e pelo preferência de cada autor no seguinte LINK (inclusive os dez livros que listei, e também Gilberto Mendonça Teles).

Fevereiro 14, 2009

SAYAT NOVA

Belo o filme sobre o poeta armênio Sayat Nova (A cor da romã, do russo Sergei Paradjanov), que viveu entre 1712/95! Cansou-se da vida palaciana e, depois da morte da mulher, retira-se para o monastério de Haghpat, onde é aceito como monge. Quando os persas atacam o monastério, pedem a ele para renegar Cristo, mas é decapitado ao apresentar resposta negativa. Legou muitos cantos em armênio, georgiano e turco. Charles Aznavour gravou uma de suas canções. Consegui apenas alguns versos esparsos para deixar aqui, retirados de um blog argentino (os versos são de suas várias canções, odes, sei lá). Há livros dele em francês.

Não padecerei neste mundo,
pois para mim és vida.
És uma taça de ouro
cheia da água da imortalidade.
Antes, indica-me meu delito,
em seguida, mata-me.
Para mim tu és Sultan e Khan.
Tens o talhe de um cipreste, de um plátano.
A razão fugiu de minha cabeça,
és uma vide num novo jardim.
Um hipogrifo saído do mar de fogo.
És a flor vermelha e o branco musguet
dos vales para mim
Sou um pássaro num país estrangeiro,
e tu, uma gaiola dourada.

Fevereiro 13, 2009

William Faulkner

Por vários anos, em repetidas vezes, refutei a leitura de O som e a fúria, de William Faulkner. Temia tocar neste autor americano em meus encontros com o amigo Euler Belém, que é admirador incondicional desse novelista, e demonstrar meu analfabetismo faulkneriano. Sempre que iniciava a leitura do romance ou do conto Cavalos malhados — que está no volume da Civilização Brasileira, que traz três novelas, entre elas O urso —, eu me atrapalhava com a forma de o autor já entrar no meio da história como se o leitor já tenha conhecimento antecipado do que vem acontecendo com o enredo. Ele já começa no fim do enredo, já que o enredo para ele não é o percurso da narrativa, mas algo que dá intensidade ao homem de uma época. Além de ter uma inteligência hábil para enriquecer a linguagem. A própria novela O urso, logo de início, traz um intrincado de difícil penetrabilidade (vou ter a paciência de datilografar):

“Havia um homem e um cachorro também, nessa ocasião.”

Impecável como abertura. E é como eu disse: a narrativa não se inicia aqui, mas “nessa ocasião”. Nenhuma narrativa, aliás, tem o primeiro dia da criação, só mesmo o Gênese, que, no entanto, não tem o The end, e as obras de Faulkner também não se concluem.

Mas vejamos a conclusão do primeiro parágrafo de O urso:

“Havia um homem e um cachorro também, nessa ocasião. Duas feras, contando Old Bem, o urso, e dois homens, contando Boon Hogganbeck, no qual corria um pouco do mesmo sangue que corria em Sam Fathers, muito embora Boon pertencesse ao lado plebeu, e apenas Sam, Old Bem e o cachorro Lion fossem idôneos e incorruptíveis.”

E o primeiro homem? Não é nomeado no primeiro parágrafo, apesar de aparecerem os nomes do urso e do cachorro. My God! Faulkner é um jogo de xadrez.

Mas voltemos a O som e a fúria, que terminei a leitura neste momento. É de uma assustadora violência, principalmente se levarmos em consideração que os personagens atingidos são crianças, um louco e, claro, a mãe. Nem mesmo a cena do cavalo em o Crime e castigo, de Dostoiévski, ou capítulo sobre o cavalo, no Germinal, de Zola. Ainda fico imaginando, se depois de descer da charrete (o veículo tem outro nome no romance), Jason, o personagem, terá encontrado paz ou continua violentando psicologicamente os demais. Duvido! Deve estar aqui na minha vizinhança ou dentro da casa de algum... deixemos para quem o conheça. Ai! ele vai ficar me atazanando por séculos. Temo que ele bata à minha porta.

Mas o tempo, a forma de narrar sempre no tempo presente e no fluxo de consciência, torna tudo muito nebuloso em Faulkner. Também não interessa: o autor quer nos tornar/nos deixar/nos fazer cúmplices da realidade. Não! realmente não é um romance para qualquer um: exige paciência, estômago e coragem para admitir que não se compreendeu tudo. Ele data os quatro capítulos: apesar de Faulkner datá-los, o último acontece na mesma semana do primeiro capítulos, mas alguns personagens desaparecem de um dia para o outro. Aí que é dominar a narrativa: o autor tem de usar num capítulo os personagens, a intensidade do real que lhe cabe naquele momento. E Faulkner não trapaceia quanto a isso: domina.

A realidade retratada em O som e a fúria é aquela que antecede a bolha de 1929, portanto tememos o que acontece neste momento no mundo: uma violência sutil dentro dos lares, pois o incômodo da derrocada financeira leva o homem a se acotovelar com o outro. Espero que as crianças não sejam as mais atingidas pelo fluxo de consciência dos adultos.

Mas isso já se alonga demais para um blog. Vou encarar outros livros de Faulkner, principalmente Luz de Agosto e Absalão! Absalão! Talvez amanhã ou daqui a alguns anos. Não sei. E, claro, tenho de dar um jeito de encarar O urso, passar pela matemática de suas frases. Ou essa matemática se encontra apenas no primeiro parágrafo (ele não usa os acentos de interrogação em O som e a fúria). Mas é esta matemática que torna um livro desafiador! Que venha Faulkner com seu O urso!.

Minha saudação à bela tradução do poeta Paulo Henriques Britto para a Companhia das Letras. Só espero que os tradutores brasileiros não usem mais a palavra "corrugado", que vem do espanhol e soa ridículo em português/brasileiro, pois para nós é "enrugado" mesmo.

Como voltei aqui para corrigir duas palavras depois de postar o texto, me deu vontade de incluir uma frase cheia de sarcasmo usada por uma personagem mais que secundária, que está sem trocar de roupa depois de uma semana de trabalho e ainda irá sem se lavar à igreja. Indagada o que pode acontecer se ela tomar chuva, ela responde: "Ainda não aprendi a parar a chuva." O goiano é mestre nestas tiradas, inclusive o amigo Euler Belém.

Fevereiro 11, 2009





















Deixamos aqui um dos slides do curso de “Ecologia Interior”, de Édisa Lopes Brito, em que foram usados três versos de um poema de nossa autoria. O curso tem apoio da Associação Humanista Crescer.

Fevereiro 09, 2009

Romance de Ronaldo Costa Fernandes

Foto: Robson Corrêa de Araújo

Consultei a internet e constatei que a divulgação do resultado do Concurso Nacional de Literatura Prêmio Cidade de Belo Horizonte, edição de 2008, mereceu raríssimas notas em jornais e mesmo em blogs. Foram-se os tempos em que os jornais entrevistavam os vencedores! Mas eu não poderia deixar de me regozijar de ter um amigo entre os premiados. Torço para que uma editora se ofereça para editar o seu romance. Portanto, saúdo Ronaldo Costa Fernandes pela premiação na categoria romance com o inédito “O vigia”. Caso os jornais ou editoras não tenham o contato dele para entrevistas e contrato, podem me procurar. Destaque, ainda, para a categoria poesia para o livro “A outra noite”, da mineira Ana Martins Marques”; e de contos para “Contos do Norte”, de Jádson Barros Neves (Guaraí-TO).

OS HERALDOS NEGROS - de Cesar Vallejo

Há golpes na vida, tão fortes... E eu não sei!
Golpes como do ódio de Deus; como se diante deles,
o sofrimento em ressaca
se empoçasse na alma... E eu não sei!

São poucos, mas são... Abrem sanjas escuras
no rosto mais fero e no lombo mais forte.
Talvez sejam os potros de bárbaros átilas;
os heraldos negros que nos manda a Morte.

São as quedas fundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
do pão pronto na porta do forno e queima.

E o homem... Pobre... pobre! Vira os olhos, como
na hora em que a mão nos bate nos ombros e nos chama;
volta os olhos loucos, e tudo que foi vivido
se empossa no olhar, como culpa cheia de lama.

Há golpes na vida, tão fortes... E eu não sei!



Tradução de Salomão Sousa

POEMAS DOS DONS - Jorge Luis Borges

Com a preocupação de ir selecionando material para montar uma grandes antologia de exponenciais poemas da humanidade, traduzi o "Poema dos dons", de Jorge Luis Borges. Gostaria muito que as pessoas julgasssem a tradução e mesmo dessem sugestões visando aperfeiçoá-la.


Ninguém derrame a lágrima ou não acoite
esta declaração da sábia mestria
de Deus, que com magnífica ironia,
de uma só vez me deu os livros e a noite.

Deu posse a esta cidade de livros
a olhos deixados sem luz, que só podem,
nas bibliotecas dos sonhos, ler crivos
de insensatos parágrafos que cedem

as poucas alvoradas. Em vão o dia
prodigaliza livros infinitos,
árduos como os árduos manuscritos
que pereceram junto a Alexandria.

De fome e de sede (na história grega)
falece um rei entre fontes e jardins;
me fatiga e deixa sem rumo os confins
desta alta e funda biblioteca cega.

Enciclopédias, atlas, o Oriente
e o Ocidente, séculos, dinastias
e símbolos, cosmos e cosmogonias
brindam os muros, mas inutilmente.

Lento em minha sombra, a penumbra seca
exploro com o báculo indeciso,
eu, que imaginava ser o Paraíso
certa espécie de eterna biblioteca.

Algo, que rege estas coisas, alfombra
da palavra azar a deixar caladas
relíquias para outro em enevoadas
tardes de muitos livros e de sombra.

Ao circular errante nas galerias
às vezes sinto com horror sagrado
que sou o outro, o morto, que teria dado
passos iguais sempre nos mesmos dias.

Quem insiste em escrever este poema
a partir de uma sombra e de um eu plural?
Que importa a palavra que me dá aval
se sempre foi pálido e uno o anátema?

Groussac ou Borges, vejo sem tormento
o mundo que se deforma e se apaga
entre uma indiviza cinza vaga
que se parece ao sonho e ao esquecimento.

Fevereiro 04, 2009

Brasigóis Felício

Carinhosa a resenha de Brasigóis Felício sobre o nosso livro Momento Crítico, publicado na revista Bula, editado na ambiência cibernética a partir de Goiânia. Em outro momento, Brasigóis, certamente os meus artigos estarão mais focados na literatura goiana, tão plena de grandes poetas (lembremos a sua poesia, a de Yêda Schmaltz, do Aidenor Aires, do Delermando Vieira, do Valdivino Braz, dos novos Marcos Caiado e Edmar Guimaraens. Também me surpreendeu a poesia de Carlos Willians.). A próxima resenha que quero fazer é do livro Caderno, de Edmar Guimaraens, mas queria fazer um contato com ele antes — mas ele é muito na moita. Mas ainda “arranco ele da moita”, para usar uma expressão bem goiana. Sou amigo destes poetas e desta poesia. E certamente José Godoy Garcia, Afonso Félix de Souza, Gilberto Mendonça Teles e Cora Coralina. Obrigado pela resenha “O perfume da memória e o ocaso da crítica”.

Aproveito para agradecer a resenha de Manoel Hygino no jornal Hoje em Dia, de BH, também sobre o Momento Crítico.


As duas resenhas estão postadas no meu blog salomaosousa.

Fevereiro 03, 2009

A jornalista Marcela Heitor de Andrade, em sua monografia de graduação na UNB, através de entrevistas de 21 escritores de Brasília, estuda a possibilidade de escritores exercerem a profissão de Jornalista. Ela cita aspectos apresentados em nossa introdução à antologia Deste Planalto Central ― poetas de Brasília.

Janeiro 23, 2009

Norwegian Wood

Estou lendo o romance "Norwegian Wood", do japonês Haruki Murakami. Um romance de amor juvenil, dizem que um tanto autobiográfico. Boas descrições e de tensões psicológicas (consciência psicológica?). Eu até diria que é uma novela, pois o autor vai passando de um personagem para outro, deixando os dois centrais permanecerem no seu conflito. O título é homônimo de uma canção dos The Beatles. Deixo aqui a tradução da canção, que remete bem aos anos 70 e também às canções de amor de Pablo Neruda.

MADEIRA NORUEGUESA (O Pássaro Tinha Voado) [*]

Certa vez eu tive uma garota
Ou devo dizer que ela me teve
Ela me mostrou seu quarto, não era bom
Madeira norueguesa?

Ela me pediu para ficar
E pediu para sentar em qualquer lugar
Então olhei em volta e notei
Que não havia uma cadeira

Sentei em seu tapete
Dando meu tempo, bebendo seu vinho
Conversamos até as duas horas
E então ela disse: “hora de dormir”

Ela disse que foi trabalhar cedo
E começou a rir
Eu disse que eu não
E me arrastei para dormir no banheiro

E quando acordei, eu estava sozinho
O pássaro tinha voado
Então acendi um fogo, não era bom
Madeira norueguesa?

Janeiro 18, 2009

Agradeço ao Euler Belém o comentário que faz na edição desta semana do "Jornal Opção", em sua coluna Imprensa sobre o meu livro Momento Crítico:

O não-im­pres­sio­nis­mo de um crí­ti­co ta­len­to­so e nada academicista

O es­cri­tor e crí­ti­co li­te­rá­rio Sa­lo­mão Sou­sa lan­çou em Go­i­â­nia, no sá­ba­do, 10, na Li­vra­ria Lei­tu­ra, o li­vro “Mo­men­to Crí­ti­co”.

Sa­lo­mão diz que se tra­ta de crí­ti­ca im­pres­sio­nis­ta. Não é. Dos crí­ti­cos que não es­tão na uni­ver­si­da­de, Sa­lo­mão é um dos mais es­tu­di­o­sos e de­di­ca­dos, e sa­be, co­mo ra­ros, fa­zer a pon­te en­tre a crí­ti­ca aca­dê­mi­ca e a não-aca­dê­mi­ca. Nou­tras pa­la­vras, alia o ri­gor crí­ti­co, por sua con­ta de sua for­ma­ção ri­go­ro­sa, com a fa­ci­li­da­de pa­ra es­cre­ver sem usar a lin­gua­gem-pe­dre­gu­lho de al­guns pro­fes­so­res uni­ver­si­tá­rios. Há mui­to mais crí­ti­ca im­pres­sio­nis­ta na uni­ver­si­da­de, tra­ves­ti­da de mé­to­do, do que se cos­tu­ma pen­sar. Al­gu­mas ve­zes, há mui­to mais pers­pi­cá­cia ana­lí­ti­ca na crí­ti­ca ti­da co­mo im­pres­sio­nis­ta do que se ima­gi­na e não mui­to ra­ra­men­te a crí­ti­ca im­pres­sio­nis­ta, des­co­bri­do­ra de no­vos ca­mi­nhos, é apro­pria­da e re­fi­na­da pe­los “reis do mé­to­do”.

Re­co­lho tre­cho ex­tra­í­do por Sa­lo­mão de um ro­man­ce do gran­de Knut Ham­sum (tor­nou-se exe­cra­do por não ser de es­quer­da): “Quan­do che­ga a ve­lhi­ce, dei­xa­mos de vi­ver o pre­sen­te e pas­sa­mos a vi­ver de re­cor­da­ções. Che­ga­mos co­mo uma car­ta ao seu des­ti­no; dei­xa­mos de ter ca­mi­nho a per­cor­rer. Res­ta-nos, uni­ca­men­te, sa­ber se a nos­sa pas­sa­gem pe­lo mun­do de­sen­ca­de­ou tur­bi­lhões de pe­nas e ale­gri­as, ou se a nos­sa vi­da nos dei­xou uma úni­ca sen­sa­ção”.

A crí­ti­ca de Sa­lo­mão é vi­va, pre­sen­te, par­ti­ci­pan­te. Não en­ve­lhe­ceu. Por quê? Por­que, lon­ge de co­zi­nhar mé­to­dos, que en­ve­lhe­cem mais do que a li­te­ra­tu­ra, tra­ta, pro­xi­ma­men­te, de li­te­ra­tu­ra. Não se tra­ta de um crí­ti­co que fi­ca len­do ape­nas crí­ti­ca, com o ob­je­ti­vo de ba­li­zar sua lei­tu­ra. Tra­ta-se de crí­ti­co que lê e in­ter­pre­ta li­te­ra­tu­ra. É seu gran­de trun­fo.

Centenário de Edgar Allan Poe


Nesta terça-feira (19 de janeiro), comemora-se o centenário de nascimento de Edgar Allan Poe, que se consagrou como contista e é o grande poeta de "O corvo", que ao lado de "Ulisses", de Tennyson, são os maiores poemas da humanidade (for me). O poema "Ulisses" já se encontra nesse meu blog, e, aproveitando a data comemorativa, incluo o poema de Edgar Allan Poe, na antológica tradução de Fernando Pessoa. Existem outras traduções, inclusive de Machado de Assis, que já me foi presenteada na década de 80 pelo amigo José Sales Neto. Foi presente memorável: datilografado pelo próprio Sales num papel longo e veio num tubo destes usados para guardar obras-primas, que só Poe merece. É dispensável a apresentação de Edgar Allan Poe, pois é vasto o material sobre na internet. Em quantas noites solitárias já li esse poema. Em quantas ainda lerei!!!!


O CORVO
de Edgar Allan Poe
na tradução de Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Janeiro 17, 2009

Nasço da indecisão das plumas,
da falência a tornar múltiplos
gestos e fogo, de umas cinzas
Indeciso na precisão do fôlego
Lobeira sem quem lhe colha
o caule, o indigesto fruto

Indiferença aos sopros,
aos rogos de um detalhe
Prontas para esfarelar-me
me esperam cheias de arestas
as unhas sobre a tina de prata

Grão ao descaso do dente,
da lâmina, do limo
Grão com a limpeza de um fluxo
e pele e pumas

Não levei os tímpanos à guerra
Não raspei a mão
na solidez da máquina
Permaneço murcho
depois de deter-me,
não enfunar-me
diante da palha e da fagulha

Não renasço se não perdi,
se nas mãos de um vento
farelo não fui,
se não fui a pendida fruta,
a água a corroer o talo
Só a espuma em mim flui



@ salomão sousa
Terminei agora de assistir a minissérie "Maysa". Por que os músicos pagaram com um preço tão elevado pelo alcance da liberdade? Elis? Charlie Parker "Bird"?
Aqui de madrugada e precisando dormir. Ah! mas me deu vontade de postar aqui a tradução que fiz de um poema de Federico Garcia Lorca. E outros que foram arrastados para a morte pela vontade de participar da liberdade de todos: Lorca José Marti. Neste poema, há o verde, mas um verde para encobrir o vermelho-sangue. De vez em quando vou postar um grande poema da humanidade, até completar uns cem. Alimento este desejo de fazer uma antologia com os maiores poemas da humanidade (na minha parca sensibilidade).

Então Federico Garcia Lorca:

ROMANCE SONÂMBULO
Tradução de Salomão Sousa

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O barco sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra na cintura,
ela sonha na varanda
verde carne, cabelo verde,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Debaixo da lua cigana,
as coisas a estão olhando
e ela não pode olhá-las.

***

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
vêm com o peixe de sombra
que abre o caminho da alba.
A figueira arranha o vento
com a lixa de seus ramos
e o monte, gato matreiro,
eriça suas fibras acres.
Mas quem virá? e por onde?¼
Ela continua na varanda,
verde carne, cabelo verde,
sonhando no mar amargo.

***

Compadre, quero trocar
meu cavalo por sua casa,
meu arreio pelo espelho,
minha faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde os portos de Cabra.
Se eu pudesse, seu moço,
este trato se fechava.
Mas eu já não sou eu
nem já é minha a minha casa.
Compadre, quero morrer
decentemente em minha cama.
De arma branca, pode ser,
com os lençóis de holanda.
Não vês a ferida que tenho
do peito até a garganta?
Trezentas rosas morenas
leva teu peitilho branco.
Teu sangue respinga e cheira
ao redor de tua faixa.
Mas eu já não sou eu.
Nem já é minha a minha casa.
Deixai-me subir ao menos
até as altas varandas:
deixai-me subir!, deixai-me
até as verdes varandas!
Avarandados da lua
por onde estronda a água¼

***

Já sobem os dois compadres
até as altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremulavam nos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

***

Verde que de quero verde.
Vento verde. Verdes ramos.
Os dois compadres subiram.
O longo vento deixava
na boca um gosto raro
de fel, de menta e alfavaca.
Compadre! Onde está, dize-me?
Onde está tua menina amarga?
Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
de cara alegre, cabelo alegre,
nesta verde varanda!

***

Sobre a boca da cisterna
a cigana tremia.
Verde carne, cabelo verde,
com olhos de fria prata.
O gelo da lua, em pedaços,
ampara-a sobre a água.
A noite se tornou íntima
como uma pequena praça.
Guardas-civis bêbados
na porta golpeavam.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O barco sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

Janeiro 12, 2009


Parafraseando Drummond, eu diria que de ontem para hoje estou sendo perseguido pelas bruxas (mariposas). Ao apanhar a correspondência na caixa dos correios nesta tarde ensolarada, quase piso numa mariposa morta. Já não apresenta o viço ágil das asas abertas, pois perdeu o domínio do voo (é a primeira vez que me valho da nova regra ortográfica). É até bom que a fotografia não apresente esta mariposa dentro de um foco, pois seria humilhá-la em sua fragilidade. Esta é das negras, com as rajas em forma de "V", fazendo um contraste sábio ao contrário do formato dela ao recolher as asas. Lembrou-me um poema de Fernando Pessoa, do qual transcrevo apenas estrofe:

(Louvado seja Deus que não sou bom,
e tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.

Fernando Pessoa, eu já disse isso num artigo do Momento crítico, não se preocupa com a exatidão da gramatical. Ele não fecha o parêntese que abre esta estrofe. Essa estrofe vale também para o ato poético: acredito que a poesia atual está muito mais preocupada em ser poesia do que em existir como algo integrado ao ato de existir, de forma espontânea. A poesia está precisando imitar as mariposas: pousar despreocupada na sala, e morrer despreocupada perto das caixas dos correios, numa espécie de correspondência que não precisa chegar ao remetente.

Estive fora de casa por uma semana e, ao retornar, recebi uma visita rara. Há muito eu não me encontrava com a mariposa marrom de rajas paralelas. Não conheço o seu nome científico (ah! e ele nem vem ao caso!). Pelo aspecto aveludado, parecendo um tecido de pequenos pêlos, as mariposas provocam medo em algumas pessoas. Ou asco. Por isso são chamadas de bruxas. Não foi à-toa que a reação de uma garota que estava em casa foi indagar de imediato se podia matá-la. Não sei se elas tem uma função na natureza, talvez apareçam para nos provocar, para nos dizer que há algo que completa o mundo sem necessidade de uma compreensão científica mais explícita. Talvez ela seja parente da poesia — este asco que provoca as pessoas, deixando-as inquieta, querendo destroçar a página e seu autor. Tentei fotografá-la, mas nem minha máquina (com pouca bateria) nem meu celular conseguiram captá-la devidamente em suas nuanças. Deixei-a por algum tempo descansar na parede de minha sala, depois abri a porta e empurrei-a para a liberdade da noite.

Janeiro 10, 2009


Ficamos em Goiânia por três dias para comprar livros de poetas goianos (encontrei livros de Yeda Schmaltz, Aidenor Aires, Edmar Guimarães, Wesley Peres, Carlos Willians entre outros) para ampliar o nosso acervo. Comprei o livro do Colemar Silva sobre a história de Goiás: ele reconhece que é antiga a resistência em insistir negar os avanços que o Estado alcança em diversas áreas, pois sempre se pregou que o estado é pobre, ruim de cultura e coisas tais. Acrescentamos, e faremos estudo nesse sentido, que Goiás é um estado recente, e que tudo que nele foi produzido, principalmente na área da poesia, é fato para construir valores futuros. Aproveitamos para divulgar nosso livro Momento Crítico no shopping Goiás, em espaço cedido pela Leide, que cuida da parte cultural da livraria Leitura.


Os nossos amigos escritores que compareceram à livraria Cultura : Brasigóis Felício, Valdivino Braz, Edival Lourenço, Cézar Santos, Vassil Oliveira e eu (o Euler Belém acabara de sair), e o encontro com Aidenor Aires se deu em outro momento no Instituto Histórico de Goiás.

Janeiro 01, 2009





Estou realmente de férias.
Reencontrei um depoimento que fiz no orkut
para a minha amiga Nanndy,
que merece (creio) estar por aqui, e vou tomar a liberdade de colocar uma foto dela pelo Facundo ;





e comprarás a casa
:
e as duas lâmpadas
:
e estás iluminada
:
em outro continente

Doloroso notar que alguns programas de televisão são tão sem escrúpulo! Acabei de ouvir a declaração final de Ana Maria Braga em seu programa do dia de Ano Novo. Nunca vi tamanho desserviço para a formação do humanismo. Prega a ausência da memória (jogue aquela foto fora), o egoísmo "egocêntrico" (você mesmo), a arrogância (não mudar para agradar o outro). Estamos na época de pregar a importância da história pessoal, de ajustar-se ao outro, agradar ao outro. Se não nos ajustamos com a diferença do outro, só podemos cair no deslavado abandono, no descarado rancor capaz de nos tornar tão deslocados na Humanidade que podemos virar assassinos totalitários, nazistas. O egocêntrico quer desocupar o mundo para existir só.
Pessoas que escrevem textos como estes do programa Ana Maria Braga nunca leram o conto "O pinheirinho", de Hans-Christian Andersen. Temos de sonhar com o mundo que podemos habitar, que conseguimos dominar com harmonia, e não aquele que vamos só impor nossa vontade sem respeitar a vontade do outro. No abandono — vamos simplesmente queimar como carvão.

Dezembro 24, 2008

Sempre vou me atrasando para alguns compromissos, às vezes empurrado pelo simples enfado. Até agora não desejei boas festas a nenhum amigo. Não é por desleixo ou desamizade — é um tédio de querer ficar em suspenso, sem a necessidade de ser heróico, ético ou cataplético. Ficar borboleteando sobre a flor e a lama, e continuar humanamente borboleta, amigo da lama e da flor.
Apanhei ao acaso o romance “A hora da estrela”, e Clarice Lipector que, ao escrever esse livro, é ela mesma ou outro personagem masculino que constrói, num gesto quase filosófico ou de manifestação santa, o ápice de beleza a partir de uma vida simples.
E há uma frase nesse livro que vai servir para eu saudar os meus amigos neste fim de ano: “tudo que amadurece pode apodrecer”.
Portanto, não vamos nos preocupar em ser perfeitos ou em nos realizar completamente. Mas vamos imitar Julien Sorel, do romance “O vermelho e o negro”, de Stendhal, que está preocupado em ser feliz. Talvez tenha vindo deste romance a expressão: “estou morto de felicidade”.
Vamos simplesmente ser felizes, dentro do tédio, do torpor, dentro da gala se a gala a nós se apresentar.
E, para completar a felicidade, ler pela obrigação da felicidade, pois há felicidade no instante em que o conhecimento nos fricciona — ler um destes três livros:
1) A hora da estrela, de Clarice Lispector. Meu deus — são menos de cem paginazinhas, de total aventura da beleza e do pensamento.
2) O velho e o mar. Hemingway construiu a sua fábula num momento de total desespero, de falta de outro imaginário, quando teve uma recaída de produção. Sempre as quedas permitem essas fatais fábulas da obviedade que nuca vemos. O velho Salvador nos mostra que a felicidade é cumprir a tarefa. Toda vez que leio as menos de cem páginas deste grande livro, meu coração se contrai.
3) Moby Dick. Meu velho Melville, só mesmo você existindo para existir Camus, Nietszche, a filosofia do absurdo. Temos de ter um adversário, uma baleia branca com que lutar para que o tédio não nos destrua o fígado.
E assim já matei o tédio da insônia, com este texto baleia-branca, para saudar os meus amigos. Não nos entediemos, em 2009, a ponto de xingar o garçom, o motorista, o irmão. Xinguemos, antes, nós mesmos, por não compreendermos o tédio, o rancor. Deixemos o outro fazer o seu trabalho, a ter a sua aventura, a sua traição. Sejamos humanos, incompletos e compreendamos que o outro também é incompleto, que o outro está em seu lento e errático amadurecer. Compreendamos que o eu e o outro ainda não se entrelaçam em definitiva completude. Compreendamos que a incompletude faz a felicidade, pois torna possível a interminável aventura de combater a escassez de lugares no mundo. Quem se achar completo, o bom, o bam-bam-bam — está pronto para a morte. Eu, mesmo, quero morrer o mais tarde possível, deixando alguma vacuidade de incompletude para que outro possa vir preencher com o seu pouco, com a sua escassez de completude.
Não amadureçamos tão rápido para não apodrecermos. Aproveitemos um pouco mais de sol, em 2009, como Salvador e Ahab.

@ Salomão Sousa

Dezembro 21, 2008

Não podemos exorbitar do amor!

Não sei do que mais gosto no romance "A hora da estrela", de Clarice Lispector. Romance? Novela? Desespero? A dedicatória é uma trava na garganta da beleza. O final é uma confissão da autora, ao abandonar sua personagem. Uma confissão de amor à vida. Será que o filme "Gosto de cereja" não saiu da frase final de Clarice: "... por enquanto é tempo de morangos", portanto é inútil a morte. Eu não queria, mas vou registrar a frase que mais gosto neste livro-confissão, quando Macabéa está passeando com o namorado, que é torneiro ou mecânico (não me lembro, só sei que não é presidente), e ao passar diante de uma loja de material de construção com os produtos expostos, sem o que dizer, ela faz a melhor declaração de amor da literatura brasileira: "Gosto tanto de prego e parafuso".

Em alguns momentos exorbitamos inconscientemente do amor. Noutro dia, ao ler a crítica literária de uma jornalista por quem tenho grande estima, ela exorbitou do amor. Ao comentar o livro "Danúbio", de Cláudio Magris, ela soltou uma frase que exorbita o amor. Pois sei que ela gosta da e ama a literatura brasileira. Para amarmos um livro não precisamos desamar os autores que não o escreveram. Ela disse que não tivemos nenhum autor brasileiro com cultura, sei lá, suficiente para escrever livro idêntico.

Temos de nos lembrar que as culturas européias e brasileiras são completamente diferentes. Não temos um Danúbio cercado de milênios de culturas, mas um Tocantins, um São Francisco ou um caudaloso Amazonas cercados de milênios de mitos e de primitivismo, inclusive do primitivismo crítico. O nosso "Grande sertão: veredas" é o "Danúbio", pois é na periferia do São Francisco que ele acontece. "Os Sertões" também acontece na periferia de São Francisco.

Adorno, em sua "Estética", diz que nos países em que ainda existe primitivismo ainda há esperança para novas possibilidades culturais. O Brasil é rico em possibilidades e de realizações. Eu me emociono com a poesia-rio de Manoel de Barros, da poesi-rio de José Godoy Garcia, da poesia-rio de Thiago de Mello, aai-ai "Iararana" de Sosígenes Costa!!!!

Não podemos exorbitar do amor.

Dezembro 16, 2008




Em confraternização com amigos das Assessorias Parlamentares.

Ilma, o ministro José Múcio Monteiro (que confessou ter muita poesia inédita), Lucinha, Vera e esposo, o ex-poeta Ronaldo Alexandre, Rose, o poeta que vos fala e muitos que estão em outras fotos.