Outubro 30, 2009

Desempenho Funcional


Em solenidade na Escola Fazendária, no dia 28/10/2009, foi concedida a premiação a funcionários do Ministério da Fazenda por tempo de serviço e por "desempenho funcional".

Na foto, aparecemos fazendo o pronunciamento em nome dos homenageados por "desempenho funcional" pelo Gabinete do Ministro da Fazenda. A seguir, a íntegra de minha fala:




Convidado a pronunciar uma pequena alocução em nome dos funcionários do quadro do Ministério da Fazenda, que neste momento são homenageados por desempenho funcional, saúdo de forma afetuosa nossos familiares, nossos amigos, nossos colegas de trabalho, que, com sacrifício de seus compromissos, comparecem aqui para nos abraçar. Sem os familiares, os amigos, os colegas, este evento seria ocorrência sem brilho e nem mereceria transparência a nossa atuação no serviço público. Aos organizadores deste evento, também nossos colegas, nossos especiais agradecimentos.

E cada um de nós, obviamente, manifestará com características bem individuais o reconhecimento às chefias pela possibilidade de desempenho bem sucedido de nossas funções para merecermos indicações para esta honrosa homenagem. Sem chefias honestas, envolvidas com o processo da administração, torna-se frustrante e impeditivo o desempenho da atividade de qualquer servidor. Desejamos a cada uma dessas chefias que possa continuar alcançando desempenho vitorioso em seus setores. Em nome de todas as chefias, agradeço a Demetrius Ferreira e Cruz e a José Messias de Souza a proposição de meu nome para esta homenagem e, sobretudo, a credibilidade em meu trabalho.

É quase impossível — assim numa fala rápida — condensar o sentimento que cada um dos homenageados sente, e que desejaria ver externado neste momento. Pois, certamente, cada um expressaria de forma mais eloquente e com colorido mais convincente as suas experiências, afetos, as suas crenças e esperanças construídas no convívio do trabalho, da família e da comunidade.

Portanto, lembro que neste instante eu falo com as minhas experiências, em nome de todos, esperando que as minhas palavras possam corresponder pelo menos em parte ao que cada um desejava e imaginava dizer neste momento.

Se desde a minha infância convivo com a poesia, socorro-me de um poema de Bertolt Brecht para ilustrar estas minhas palavras. Trata-se de poema do tempo de muitos que hoje estão aqui sendo homenageados, pois condensa os ideais dos anos 70 e 80. Ele deve ter passado pela cartilha da maioria da geração desse período — agora às portas da aposentadoria —, que viveu e participou de momentos de crenças sociais igualitárias, que trabalhou muitas vezes com movimentos militares espreitando a porta da consciência e povoando a paisagem da janela do trabalho.

Já que é rara a possibilidade de as novas gerações conhecerem este poema, não só pela indiferença da atual juventude para com as questões sociais, mas também pelo desprezo pelos valores culturais, é importante a sua leitura para nossos filhos e netos aqui presentes. Trata-se de poema que põe em relevo a importância do trabalho de todo homem na face Terra.

PERGUNTAS DE UM TRABALHADOR QUE LÊ

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída –
Quem a reconstruiu outras tantas vezes? Em que casas
Da Lima refulgente de ouro moraram os construtores?
Para onde foram os alvanéis na noite em que
A Muralha da China ficou pronta? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou? Sobre quem
Triunfaram os Césares? Tinha a celebrada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engolia, gritavam
Os afogados pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe de Espanha chorou, quando a Armada
Se afundou. Não chorou mais ninguém?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem
Venceu além dele?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
A cada década um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?

Tantos relatos.
Tantas questões.


Esta é a palavra do Brechet teatrólogo, do Brechet poeta e humanista, que nos diz com esse poema: o homem não trabalha só afirmação de sua existência, mas que a existência do homem se afirma com a obra que ele ajuda a construir para orgulho e benefício da humanidade.

E eu retomo a minha humilde palavra para dizer a cada filho, cada neto, bisneto, que, no futuro — se não encontrar o nome de um dos ascendentes entre os grandes construtores e heróis — poderá dizer: no entanto, ele estava lá. Ele participou com a sua crença e com a sua descrença. Ajudou, com pequenas, mas necessárias, tarefas cotidianas, a construir determinado momento histórico desse País, seja fazendo cópia, entregando documento, ou elaborando algum arcabouço da legislação que contribuiu para o País entrar em novas fases de crescimento. Até mesmo aquele funcionário que era chamado para mudar a divisória de lugar sempre que tomava posse uma nova equipe econômica. O descendente daquele funcionário poderá dizer: ele a mudou tantas vezes de lugar, até o desgaste da rosca daquela divisória, que contribuiu para o País encontrar o encaixe justo para novas fases de sua história. Este é o trabalhador — ou servidor, como no caso da Administração Pública — que cumpre meritoriamente as suas missões, ainda que as tarefas sejam repetitivas como a de Sísifo, mas que, no fim, terminam imprimindo resultados maiores do que aparentemente apresentavam no cotidiano em que eram executadas.

Cada descendente — neto, filho, ou aderente que se encontre em outra região do País — irá reconhecer que o seu herói, por mais anônimo que tenha sido, não ajudou só com o vencimento na construção de uma família — mas era um braço, uma idéia, uma consciência, não só para a sua família e a sua comunidade, mas para ajudar a Administração dos governos de que participou no decorrer destes muitos anos de trabalho.

Cabe à descendência de todos nós — esperamos que com maior eficiência, e consciência ainda mais esplêndida e destemida —, seja na administração pública ou em atividades da vida privada, alcançar resultados ainda mais gloriosos. E os mais novos, aqui homenageados, já antecipam a sua participação na melhoria da feição de nossa nacionalidade. Quanto àqueles que daqui a pouco vão requerer a aposentadoria, podem até estar sendo visitados ou rondados pela velhice, mas este país é novo — Roma e Grécia tem mais de 2 mil, o Egito mais de 5 mil —, portanto, este país novo precisa de juventude com conhecimento, de juventude que preze, reconheça e não fuja de seus compromissos. Se a juventude entende que a Nação não está construída, este entendimento torna maior o desafio para ela. Não podemos mais viver uma totalitária pregação sobre o Brasil no sentido de “ame ou deixe-o”, mas precisamos de uma pregação otimista com o futuro no sentido de “ame-o ou ame-o”, pois a fuga não constrói nenhuma nacionalidade. A fuga só fomenta o ressentimento.

Que os trabalhadores do futuro — e entre eles se encontrará a juventude de nossos filhos e netos — possam dizer como os servidores deste momento: não fomos os expatriados ressentidos, pois participamos e ainda construímos aquilo que acreditamos — uma Nação em que a riqueza sirva a todos, afinal, de uma Nação de alegre e viva liberdade.


Outubro 23, 2009

Quisera ser a grama

A luz que molhou
o vestido nos dias perdidos
Talvez o fruto pendido
de um galho
pendido sem aparecer no recorte
sem roçar as nuvens
descer ao decote
Só a estação da quimera
que não foi pensada ou partida
Só a lente sem nódulos
que não entra na química
Só a luz que vira retrato
de um corpo sem ato
de um olhar que não viu

Um instatâneo
para um único olhar

Outubro 19, 2009

No dia 5, a partir das 13 horas, participaremos da FLIPORTO — V Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas.

DIA 5 (QUINTA-FEIRA)

CENTRO DE CONVENÇÕES 1 DO HOTEL ARMAÇÃO

12:30h – Inauguração da Fliporto Digital: Exposição, Biblioteca Virtual (1) e Sala de Conferências do Centro de Convenções (2)

13h – 1ª Vídeo-conferência – BIBLIOTECA NACIONAL DE BRASÍLIA | FLIPORTO
Palestra de Antônio Campos: “O livro: reflexões no século XXI”. Apresentação e mediação de Antonio Miranda
13:30 às 14:00h – Debate. Participantes DF: Carlos Alberto Xavier (assessor especial do Ministro da Educação) e Salomão Sousa, poeta e editor das obras da Bienal Internacional de Poesia de Brasília.

Outubro 09, 2009

A lista não é essa

Que a revista Rolling Stones me perdoe, mas a lista das melhores músicas não condiz com a realidade nacional. Uma coisa é a intelectualidade e outra a consagração popular e internacional. Disparada em desejo nacional, as melhores músicas brasieliras são "Garota de Ipanema", "Asa Branca", "Aquarela do Brasil", "A felicidade". Depois nós podemos começar a distribuir a música da intelectualidade. "Garota de Ipanema", gravada por todo mundo em todo mundo, ser substituída pro "Águas de março". Vai tudo por água aaaaaaaaaaaaaaaaabaiiiiiixo. Só podem ter errado na editoração, a lista não era essa.

Outubro 02, 2009

Cinen e senões!!!!

O novo mundo entra no mundo das olimpíadas.
Todo mundo agora nas pistas para quando chegar o dia
ganhar a medalha! Vai lá, Bizé!

Peço perdão àqueles mais assíduos a este blog,
como o amigo Robson Corrêa de Araújo,
por estar pensando pouco através dele!
Tenho lido (Saul Bellow, o Bellow pesado!),
e andado de ônibus com motoristas teimosos,
que acham que ninguém precisa ler.
Talvez seja a maneira dele se vingar:
por que alguém tem de viajar lendo
se ele tem de trabalhar em movimento, sem viajar!

Ah! uma proposta de lei de fomento à leitura:
quem estiver lendo no metrô ou no ônibus
tem direito à luz e também preferência de assento!
Acredito que todos vão carregar seu volumezinho para ter o assento assegurado!
Oh! Legisladores municipais! Tão aí ganhando dinheiro aí àtoa, senm pensar em lei e ainda sem ler?

E uma notícia amiga:
o amigo Cinen de Sousa, em comemoração aos 50 anos de vida,
vai publicar o livro
Breve exposição de motivos pra contemplar arco-íris.
E o charme, o meu orgulho, a minha genuflexão, o meu louvor, honor:
fui convidado a fazer a nota introdutória.
Ele trabalhou aqui na Thesaurus.
Um parágrafo do meu texto:

A imagem que retive de Cinen de Sousa é de uma criança que jamais envelhecerá. Sempre brincará de carretéis, sempre será aprendiz de passarinho. E terá amores adolescentes. Tanto Cinen de Sousa quanto a sua poesia contrariam todos: eles dizem e provam que o mundo não morrerá

Setembro 19, 2009

Alaor Barbosa

O amigo Alaor Barbosa no manda o seguinte email na noite desta sexta-feira:

Comunico que foi lançado esta semana, dia 14, em Lisboa, pela Editora
Dom Quixote, meu romance EU, PETER PORFÍRIO, O MAIORAL, prêmio de
publicação do Prêmio Leya 2008.

Com todo nosso sentimento goiano, a notícia trouxe alegria à nossa porta. Já sabíamos da premiação e aguardávamos a publicação do romance premiado.

Setembro 18, 2009

Afonso Félix de Sousa

Na próxima quarta-feira, 23 de setembro de 2009, às 19h, participaremos do Tributo que Biblioteca Nacional de Brasília prestará ao poeta Afonso Félix de Sousa (Jaraguá-GO, 1925). A poeta Astrid Cabral, viúva do homenageado, comparece à Capital para fazer a conferência sobre vida e obra do autor, e , junto com os poetas Alexandre Marino, João Carlos Taveira, participaremos do recital lendo polemas seletos do autor, além da participação da jornalista e escritora Ana Cristina Vilela no papel do famoso poema a Moça de Goiatuba.


Auto-retrato


Afonso Félix de Sousa


A maneira de andar
como quem busca
estrelas pelo chão.

A cabeça a dar contra muros.
Em cada olho, o mundo como um punhal
-- cravado.

O pensamento a abrir estradas
numa várzea distante.
Os ângulos do sonho formando orlas
povoadas de fêmeas
que a meu encontro viriam
do outro lado, em lânguidas posturas.
Diante do mar, a sede, a sede
de beber a vida em infinitas viagens.
As garras de gato ante paredes impostas.
A impaciência de que chegue a manhã e a praia,
a tarde e o amor.

A maneira de andar
como a fugir dos homens
-- e tê-los contra o peito.
O pensamento a atirar pedras
contra as vidraças
que guardam os produtores frios
de injustiças.

O coração que bate
ao som de fábulas.
Que bate
contra rochedos mortos
numa praia de cinza
onde palpita o primeiro amor.

O coração eterno.
O amor eterno
que bate.

A alegria! A alegria!
Íntima, espantada de si mesma, gloriosa
como palmas a se abrirem aos quatro ventos,
a alegria de sentir-se vivo, alegria
de bicho do mato, criança, dominada,
eterna.

Setembro 11, 2009

Revisão de um poema ainda a ser revisto

Estou terminando o terceito livro da Trilogia do Cairo, de Nagib Mahfuz.
Onde tudo se condensa e, assim Schopenhauer, nos deixa no abismo.

Revi um poema postado aqui um dias atrás. É para deixar mesmo a respiraçaõ entrecortada.
Uma hora este poema bate o seu badalo.



Por dissolvidas células
por drenos engastados nas veias podres
por atos de drágeas moles e
uretra arrebatada por sangue

iguais a foles desgastados
ar não sugam
e o sopro entre cortado sangue
se os canais pedem agastados
leitos de anamofilina
intervalos de sopros
contínua missão de dissolver

os vasos se impulsam se emperram
nos músculos de poros com drenos
Segue pelo deserto de drogas
de corpos de drágeas
resfolega sem fôlego

Nada respira ou suga
Desertaram-se as pétalas vivas
os jatos de um caudal
de um prazer que se gesta numa uretra
Excretasse de forma ereta!
Desampara a sarna com gasturas
e o deserto e o deserto desampara
se só areia se só luz para esfregar
fadiga fadiga fatigado útero

Setembro 08, 2009

Saul Bellow

Às vezes eu me me surpreendo perguntando sobre os grandes escritores americanos, pois quase sempre compreendemos a literatura dos EUA só em termos dos livros de livros de comunicação rápida. Mas sempre me extasio diante de Melville, de Faulkner, Salinger, Hemingway. Não podemos esquecer de Thomas Pyncho, que ridiculariza o mundo capitalista, de geração de lixo e deterioração cultural. E o encanto da literatura fragmentada e, ao mesmo tempo, tão real e necessária de Saul Bellow. À época em que ele ganhou o prêmio Nobel (1976), encataram-me O Legado de Humboldt, Henderson, O Rei da Chuva, e nunca me esqueço da última frase de O Planeta do Sr. Sammler.
— E sabemos, e sabemos, e sabemos.

Não consigo me lembrar de nada de Herzog, que é considerado sua obra prima. Terei de reler. pois aqui ele é mais questionador, indagador, bem moderno, se a narrativa, através de cartas, permite mais a introspecção do narrador ou do personagem ou ambas.

Agora estou no último volume da trilogia do Egito, de Nagib Mahfuz, e todas as 1800 páginas dos três volumes não passam desta constatação final de Saul Bellow. Sabemos e, no entanto, caímos nos mesmos fracassos.
E agora estou louco para ir à livraria buscar um exemplar de As Aventuras de Augie March, em tradução de Sonia Moreira, (Companhia das Letras, 704 págs., R$ 67). Estão dizendo que é nova tradução, mas é engano, pois o livro nunca saiu no Brasil anteriormente. O Estado de S. Paulo errou mais: a obra de Saul Bellow já foi bem contemplada e encalhada no País. Ele merece bem mais leitura do que encalhe. Qualquer sebo certamente tem livro dele.

Se o leitor é escritor, sugiro a entrada em Bellow pel'O Legado de Humboldt. Se o leitor gosta mais de leveza, por Henderson, O Rei da Chuva. Se é economista ou gosta de conhecer o sabor do uso da língua, este As Aventuras de Augie March, pois a história se passa na depressão de 29. Pelo que escreve o critico abaixo, o romance deve lembrar muito A Casa Desolada (a merecer reedição pela Nova Fronteira, já que ela editou o livro no País e ele está esgotadíssimo), de Dickens, que trata das multiplicidade das questões urbanas, sobretudo da burocratização processual, que esgota os recursos da população com excesso de documentos e tramitação, pois Bellow busca a sua experiência nos grandes narradores.
É bom lembrar que Bellow e Mahfuz são contemporâneos e que ambos ganharam o prêmio Nobel.

Vinicius Jatobá (Estado de S. Paulo):
O escritor apostou alto nesse romance de 1953: ele representa o êxtase do idioma americano, uma prosa em que o sabor do vernáculo, com todo seu senso de improviso e poesia, entra em namoro com uma ideia babélica de experiência urbana. Romance de formação, história de um homem que cresce em meio à Crise de 29, a picaresca construída por Bellow tem um sabor diferente dos romances usuais do gênero - nele, não se acompanha o desencadeamento lógico de uma personalidade. O que se vê em Augie March é a voragem de conhecimento de um indivíduo sendo deformada pela voltagem de improviso que a experiência urbana lhe oferece. Em cada esquina, uma nova história; cada pessoa é fonte de um saber único; as ideias atravessam sua vida com a mesma exuberância sedutora que as mulheres - e há muito adiante por ser descoberto para se ocupar com o passado, mesmo recente.

Agosto 21, 2009

JOAQUIM CARDOZO

Antes de sair para Recife nas férias de julho, já andava atrás livro Poesia completa e prosa, de Joaquim Cardozo, editado em 2009 pela Nova Aguilar/Massangana. Estou com a edição aqui entre as mãos, cheirando a livro e poesia. Podiam ter incluído a obra teatral do autor. Nunca as coisas são tão completas tão assim.

Defrontei-me com uma espécie de bilhete de Drummond numa página. Fui ao poema citado por ele e fico pensando nas formas como nos comportamos. O poema citado por Drummond tem de estar entre os grandes da poesia brasileira, com destaque nas antologias, nos livros escolares. Antecipa as pós-vanguardas, apesar de trazer nas entrelinhas as ressonâncias regionais de sua terra. Mas só sendo um poeta com um pé numa cultura bravíssima, de fontes populares nordestinas, e outro na modernidade daqueles que construíram Brasília para aventuras de linguagem futurísticas. Ele mesmo, em três momentos, insere observações sobre essa necessidade de intercessões culturais na vontade do criador.

Beijo-te, Joaquim Cardozo.


Se me perguntassem: o que distingue o grande poeta? Eu responderia: Ser capaz de fazer um poema inesquecível. O poema que adere à nossa vida de sentimento e de reflexão, tornando-se coisa nossa pelo uso. Para mim, Joaquim Cardozo, entre os muitos títulos de criador, se destaca por haver escrito o longo e sustentado poema A Nuvem Carolina que é uma das minhas companheiras silenciosas da vida."
Carlos Drummond de Andrade

A NUVEM CAROLINA

No alpendre da casa de um antigo sítio
Onde morei por longo tempo – longos trabalhos –
Todas as manhãs eu vinha ver o dia
Que sobre as cajazeiras, longe, amanhecia.
Ao lado, ao alto permaneciam. . . entre-havia
Dois morros de matas virgens coroados.
Na abertura desses montes, sempre aparecia,
Na mesma posição, na mesma hora matutina,
Uma nuvem cor-de-cinza e leve bruma,
Com fímbrias e vestígios cor-de-ouro;
– Uma nuvem ficava entre os dois capões do mato
Por alguns quantos de tempos,
Por alguns modos de sombras temporais.

Uma vez tive a impressão que ela me acenava,
Me fazia, e tanto me fazia, em mímica, sinais:
– Gestos de fuga, de fraga, de fronde e curso d'água –
Símbolos de uma linguagem nova quase toda indecidível;
Não compreendi, a princípio, aquilo, o que nela significava,
Mas senti que eram gestos, e gestos são palavras.

Da formalização dos gestos da Natureza
Pode nascer sempre uma linguagem.

Resolvi subir o morro pela beira do corgo,
Plantado de jaqueiras novinhas.
E fui caminhando até junto da abertura das matas
Onde a formosa nuvem de cinza e ouro
Me aguardava. Perto cheguei.
Como numa só voz os gestos se fundiram,
A mim aderiram, a mim se ajustaram (juntos/disjuntos)
A mim se advinharam,
E enfim disseram em voz nevoenta:
– Estou cansada de ser um vôo,
Um vôo viúvo de uma asa; desejava ter
Comigo a asa. . . uma asa que fugisse, que batesse,
Que vibrasse no ar com um som. . .
– E eu lhe disse: – Por que apenas uma asa?
Podias ter/ser um ramo, um ramo de flores.
Um ramo de folhas verdes e sobreverdes,
Ramo de uma árvore das mais belas desta mata.
– E ela: – Ah! Quem me dera!
Me vestir de amarelo nos dias de Pau D'Arco,
Me vestir de roxas sucupiras nos momentos dos ares tristes.
Quem me dera!
– Voltei a dizer-lhe: – E por que não um animal?
Um animal que exprimisse os atos da asa?
Ou. . . mesmo qualquer um outro do teu agrado?
– Ela: – Sim, seria bom, gostaria de ser uma garça
Que é, só e toda, uma asa. Mas, poderia ser uma ovelha
Pastando o dia todo nos deslizes das colinas
Ou uma novilha já no momento da necessidade
Do amor. Podia ser uma novilha amorosa.
– De súbito me veio a pergunta: – E uma mulher?
Nunca pensaste em ser uma mulher?

Senti que a nuvem, toda em gestos de fraga e curso d'água,
Me transmitiu uma expressão de espanto.
Uma expressão de extrema. . . extrema o quê?
– Perdi o contato com a linha dos seus gestos;
Mas voltei a compreender logo em seguida.
Falou, depois de algum tempo:
– Pensei, sim, pensei muitas vezes
Mas, por fim de tudo pensando, concluí
Que mais valeria possuir de novo a asa:

Mulher deste meu vôo. No meu pensamento,
Ser árvore, ser ovelha, ou ser mulher
Que valem? Todas morreram.
Todas se perderam, todas me. . . esqueceram.

A nuvem se refere a uma anteépoca
Mais remota profunda da sua origem.

Com essas palavras começou a se esconder
Por detrás do morro, sem mesmo um gesto de despedido
[abandono.
– Nuvem de ouro e cinza, se fosses mulher
Eu te chamaria Carolina:
Carolina se chamaram minha mãe e minha irmã.
Ambas, há muito, faleceram,
Mas eu, em ti, as saudaria todas as manhãs.

Com as minhas últimas palavras, a nuvem
Levada pelo vento, já se ocultara,
Como em outros dias, por detrás da mata.
Desci o corgo, pela sua margem de gramíneas,
Ao longo, longo das jaqueiras novinhas;
Voltei a casa, e dessa conversa, e mais de tudo, esqueci.
Tarde da noite daquele dia, um vento forte: um sopro
[frio/forte,
Uma chuva contínua e prolongada
Passaram sobre o telhado; as bátegas bateram
Sobre as telhas, como dedos num teclado.
– O vento soando entre as ripas e os caibros,
Como o ar nos tubos de um órgão. –
Era uma chuva noturna, como muitas outras, e a sua música banal
Cantava no silêncio dos ares campesinos.
– Desperto, escutei toda a sua sinfonia. . .

Notei, porém, que acompanhando o som da chuva, havia
Qualquer coisa de choro e pranto malogrado.
De inundado rumor de mágoa se envolvia,
Em vento e chuva, a casa toda:
Como se fosse objeto de sonho e de magia,
Pelos ares da noite alguém chorava.
Enfim passou a forte chuva, num adeus de aguaceiro
E o silêncio voltou muito limpo e lavado.
Passou. Tudo tornou ao sossego campestre.
– Dormi até o fim da noite.

Na manhã seguinte, como sempre, ao alpendre
Saí, para ver o dia, para ver o dia,
Que sobre as cajazeiras, longe, amanhecia.
Ao lado, ao alto, entre morros, tudo era vazio:
A nuvem cinza e ouro àquele dia amanhecia.

Ao lado, ao alto, entre morros, tudo era vazio:
A nuvem cinza e ouro àquele dia
Não aparecera entre os capões do mato: não. não. não. . . não. . .
Em todas as manhãs seguintes. . . sucessivas. . .
– Nunca/não surgiu, surgiu nunca/jamais
Com gestos de fuga e longo vôo.
– Gestos de fraga, de fronde e curso d'água.

No terreno liso da composição linear
Poderemos fazer nascer, se quisermos
Álgumas árvores lógicas

Agosto 13, 2009

Encontro Ano Cultural do Senado


A notícia do evento tem gerado bastante expectativa. O Brasigóis Felício acaba de me informar que virá um ônibus com 40 lugares e a esperança é que de ele venha cheio (de escritores). O Edval Lourenço já informou que sua vinda é certa. Cada um que vier que faça a sua confirmação aqui mesmo nesta postagem como comentário.

Estamos convidados como um dos escritores que participarão do evento descrito no convite. Virão de Goiás mais de 18 escritores. Não tenho em mãos a relação completa, mas sei que virão Brasigóis Felício, Aidenor Aires, Gabriel Nascente e e e. Lançamentos. Conversas. Intercâmbio.

Agosto 11, 2009

pneumonia

E eu não podia disfarçar.
Na foto externa não aparecia
ainda a pneumonia.
Estou aqui recostado por oito dias.

Leio para gastar o tempo a primeira Clarice. A narrativa exige realmente algo convincente,
algo vivente, que sai de um fole que nem sempre todos trazem esbraseado.
O meu pequeno fole também está um tanto sem carvão, mas movemo-lo nas manivelas:



Por dissolvidas dunas
por drenos engastados nas areias podres
de drágeas moles e úteros
iguais a foles desgastados
ar não sugam
e o sopro desgastado
Na contínua missão de dissolver
os pés se movem
nos desertos de poros com drenos
Seguem pelo deserto de drogas
Nada respira ou suga ou sara
Desertaram-se as pétalas vivas
os jatos de um caudal
de um prazer que se engasta num útero
No deserto a sarna desampara
No deserto os pés de movem
e dissolvidos o meu caudal e meu útero

Agosto 09, 2009



Ordem na foto: Miguel Ángel Fernandez, Salomão Sousa e Antonio Miranda.

Na boca da noite deste sábado, recebi a visita do amigo Antonio Miranda, diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, na companhia de Miguel Ángel Fernandez — uma das grandes expressões da poesia paraguaia. Em conversa rápida para tanta poesia, anunciaram que estão desenvolvendo projeto voltado para a publicação de textos inéditos, principalmente cartas, de escritores brasileiros — no naipe de Drummond e João Cabral — que pertencem ao acervo de Miguel Ángel Fernandez.
Conheçam a poesia de Miguel Ángel Fernandez na página do Antonio Miranda. Perdão: tentei, mas não consegui disfarçar na foto a convalescença de uma bronquite contraída na semana passada.



Neste Dia dos Pais, levei meus netos para um passeio ecológico em plena cidade, assim sem sair mais de quinhentos metros de minha casa. Ver aspectos microscópicos da natureza. O poeta e as crianças - o Homem, enfim - precisam da da natureza para criação da linguagem. A linguagem cria e consolida o Humanismo.
Veja as pequenas frutas do jenipapo, que me acompanham desde os tempos de minha avó; a pequena flor amarela, da serralha; e a pequena flor, ao sol, do boldo.

Agosto 07, 2009

B. Lopes

Vem em boa hora a palestra do amigo Luiz Carlos de Oliveira Cerqueira, na terça-feira, 11 de agosto de 2009, às 19h, na sede da Associação Nacional de Escritores, em Brasília, sobre a poesia de B. Lopes, este poeta mestiço-dândi (alcóolotra, epiléptico, escandaloso nas vestimentas exóticas), que contribuiu para a evolução da poesia brasileira para o Romantismo.
Um dos sonetos dele que alegrou a minha juventude pelo lado telúrico, por que não?, romântico na forma de ver e se integrar com a própria realidade:

Berço

Recordo: um largo verde e uma igrejinha,
um sino, um rio, um pontilhão e um carro
de três juntas bovinas, que ia e vinha,
rinchando alegre, carregando barro;

havia a escola que era azul e tinha
um mestre mau, de assustador pigarro…
(Meu Deus! que é isto? Que emoção a minha,
quando estas cousas tão singelas narro?)

Seu Alexandre, um bom velhinho rico,
que hospedara a Princesa; o tico-tico,
que me acordava de manhã, e a serra…

com seu nome de amor Boa Esperança,
eis tudo quanto guardo na lembrança
da minha pobre e pequenina terra!

Agosto 02, 2009

Maneiras de ver

Onde vou
vou filmando
com minhas maneiras de ver.
O urubu na praia.
O cachorro e o urubu
na praia de Boa Viagem
entre crianças
e preservativos.
Disputam a cabeça
cheia de serrilhas.
Seguir para mais distante
para fugir das ratazanas no quintal.
E as ratazanas passeiam
no caminho das crianças em viagem.
Melhor regressar.
O varal ao lado do Palácio da Justiça.
Aguardam nus, ao lado da equipagem,
as roupas secarem ao sol,
os técnicos da filmagem.

Julho 31, 2009

Estrela Solitária


Realmente me apaixonei pela interpretação da música Bambino, no filme Estrela Solitária, ficção sobre a vida do Garrincha. Até meu pai João Miguel, que não era Wisnik, iria reconhecer que a rima em ar, nesta música, nos paralelismos com ir e á, apresenta um momento de rara beleza, principalmente na interpretação de Elza Soares. Wisnik, é muito mais que vã filosofia. ... seguindo seguir, só mesmo com os universos pós-vãsfilosofias. E a Taís Araújo, só brilho brilhar.

Bambino

Elza Soares

Composição: Ernesto Nazareth E Zé Miguel Wisnik

E se o ferro ferir
E se a dor perfumar
Um pé de manacá
Que eu sei existir
Em algum lugar

E se eu te machucar
Sem querer atingir
E também magoar
O seio mais lindo que há

E se a brisa soprar
E se ventar a favor
E se o fogo pegar
Quem vai se queimar
De gozo e de dor

E se for pra chorar
E se for ou não for
Vou contigo dançar
E sempre te amar amor

E se o mundo cair
E se o céu despencar
Se rolar vendaval
Temporal carnaval
E se as águas correrem
Pro bem e pro mal

Quando o sol ressurgir
Quando o dia raiar
É menino e menina
Bambino, bambina
Pra quem tem que dar
No final do final

E se a noite pedir
E se a chama apagar
E se tudo dormir
O escuro cobrir
Ninguém mais ficar

Se for pra chorar
E uma rosa se abrir
Pirilampo luzir
Brilhar e sumir no ar

Se tudo falir
O mar acabar
E se eu nunca pagar
O quanto pedi
Pra você me dar

E se a sorte sorrir
O infinito deixar
Vou seguindo seguir
E quero teus lábios beijar

Julho 30, 2009

encontrei-me na Livraria Leitura com o poeta Oleg Almeida, bielo-russo há quatro anos em Brasília. conversa para mais de hora e meia sobre culturas e História de nossos países. seu recente livro de poemas pela 7 Letras — Memórias dum hiperbóreo — está aqui elegante ao meu lado, com abonação de Antonio Cicero e Marco Lucchesi. o livro é composto de XV diálogos, vivos sobre a cultura pessoal do autor.
e, em seguida, estive na Biblioteca Nacional de Brasília, para assistir o tributo à poetisa Renata Pallotini. foi vibrante as leituras dramáticas de
Augusto Rodrigues e Heloísa Sousa (talvez minha parente). e André Gomes foi feliz na sua palestra, bem condizente com o calor lírico da poesia da homenageada. pçude abraçar Renata Pallotini, que eu nunca tinha encontrado corporalmente.
Mais detalhes no link da BNB.

Julho 27, 2009

Viajei


Viajei. Vi homens no luxo
Vi crianças no lixo
e no lixo tropecei
Roupas lavadas próximas aos meus passos
e o que encobria úmida
podia ser relva, pedra ou trevo
Nas seis manhãs
as roupas estendidas nas calçadas

Viajei. Vi casais que quase se abraçavam
As sete pontes, algumas de ferro recortado
no estrangeiro
Vi mulheres a sós com os filhos
se sentindo alienígenas
Não pude ver os ausentes companheiros
Não pude ver as freiras recolhidas
e a zabumba a ensaiar o próximo frevo

Viajei. Senti este cheiro de homem
Fezes. Este cheiro ejaculado.
Vestido de passado
comi as minhas sete refeições
bebi os meus sete cálices
Não estive próximo à arma do tiro
Ao morto não levei luto nem mortalha

Viajei. Vi e apalpei
E se acreditei foi pela flor agreste
Foi pelo tremeluzir das luzes sobre as fezes


Julho 18, 2009

Kes


Por sugestão de uma pequena nota na Folha de S. Paulo, assisti ao filme “Kes” (1969), de Ken Loach – um dos belos filmes ingleses, se é que a miséria possa gerar algo belo. Ainda que me assuste, é esta espécie de filme que me cativa – arrancam verdades com a voz mais cruenta. E a violência é tão real na direção de Ken Loach que acreditamos que ela não é fruto da arte, mas da realidade. Creio que aquela mãe não era uma atriz, mas alguém que atravessava uma crise real. Até onde somos capazes de agredir? Até onde as pessoas precisam ser agredidas? Uma vez ouvi uma chefia dizer para sua copeira: você merece sofrer! Quem merece o sofrimento? Quem tem o direito de provocar sofrimento? As nossas frustrações têm de gerar outros sofrimentos? Às vezes agredimos onde devíamos amar. Não terei coragem de rever “Kes”. Vou deixá-lo na minha reserva de obras que vão assinalando alertas sobre as ridicularias humanas. Em umas épocas, mas agressivas; noutras, pior ainda. A leitura da trilogia das Eras.., de Eric Hobsbawm tem me auxiliado ainda mais nesta aprendizagem da violência histórica. Sempre é tempo para aprendizagens, e tão pouco sei. Quem sabe a poesia venha preencher isso tudo daqui a pouco, pois ela, neste momento, está adormecida.

Junho 25, 2009

Podemos estar em silêncio, o cio frio,
no entanto algo fleme, inflama, infuna.
No entanto, algo incomum move.
A poesia, que é incomum.
A fartura do desejo, que é incomum.
A fartura de Whitman,
que é incomum!
Que o Ronaldo Costa Fernandes me corrija,
se erro.
Que o Ronaldo Cagiano me corrija,
se me engano.
Que o Vassil Oliveira me corrija,
se vacilo!

OH! MEU CAPITÃO! MEU CAPITÃO

Walt Whitman
Versão: Salomão Sousa


I.
Oh! Meu capitão! Meu capitão! nossa fatal viagem é finda;
O barco venceu as tormentas, alcançados os prêmios que buscávamos;
O porto está próximo, ouço os sinos, o povo se exulta;
Embora os olhos sigam as firmes quilhas, a embarcação sinistra e audaz:
Mas oh! coração! coração! coração!
Não derrame nem uma mínima gota
No convés onde meu capitão jaz
Estirado frio e morto.

II.
Oh! Capitão! Meu capitão! Levanta e ouça os sinos;
Levanta — por ti a flâmula flana — por ti a corneta trila;
Por ti buquês e grinaldas com fitas — por ti as multidões nas margens;
Por ti eles chamam, se aglomeram, os rostos ansiosos à procura;
Oh! Capitão! querido pai!
Passo embaixo de ti este braço;
No convés é um sonho que jaz,
Onde te estirastes frio e morto.

III.
Meu capitão que não responde, os lábios pálidos e tranquilos;
Meu pai que meu braço não sente, está sem pulso e vontade;
Mas o barco, o barco ileso ancorou, a viagem feita e conclusa;
Da terrível viagem, a vitória do barco, os objetivos alcançados;
Exultem-se, oh! margens! e toquem, oh! sinos!
Mas eu, com passo silente,
Atravesso onde meu capitão jaz
Estirado frio e morto.

Junho 10, 2009

Sutis declarações sobre a poesia de Salomão Sousa

Sua poesia é esse jeito, esse movimento, a funda estocada no coração das emoções.
Sérgio Campos (Nova Friburgo-RJ)

Para começo de conversa, o poema “Safras” é sensacional: é lindo de morrer, enxuto, na palavra exata.
Zila Mamede (Natal-RN)

… gosto desse movimento pendular, oscilando entre o lirismo confessional e o discurso cheio de indignação; justa revolta e amor pela vida, bem dosados e temperados.
Uilcon Pereira (Araraquara-SP)

Caderno de Desapontamentos, muito belo, sensível e pungente —só lamento ter somente agora conhecido a sua poesia, que revela um poeta consciente do poder da palavra, sem o ouropel e a sacralização acadêmicos.
Assis Brasil (Teresina-PI)

...gostei do seu modo de garimpar os territórios quase inacessíveis da metáfora, sobretudo quando aliada aos aspectos da miséria social e do cotidiano nem todas as vezes abordável, poeticamente.
Jorge Tufic (Fortaleza-CE)

Já nem sei se estou conseguindo esplicar-lhe minha emoção em ler seus poemas de Criação de Lodo, suas pérolas, sua baba, sua metáfora, seu borboletear.
Manoel Lobato (Belo Horizonte-MG)

Criação de Lodo é um livro primoroso. Dá a dimensão do talento do autor e também da sua formação enquanto artista. O texto introdutório —ensaio? metapoema— credencia o autor como um autêntico poeta que compreende o valor e as razões do seu ofício na modernidade. Num momento em que a poesia brasileira parece morta, o Salomão Sousa de Criação de Lodo é enfim um dos poucos que parece saber o que faz.
Osvaldo Duarte (Vilhena-RO)

A criatividade que contém seus versos; a beleza de seu estilo; virilidade de suas metáforas; o canto da terra a exalar o cheiro agreste da pureza; todas essa virtudes o tornam único.
Mário Celso Rios (Barbacena-MG)
O alvo insólito se esconde em abril.
A sólida ferrugem nos fuzis.
Os desamparadas informes
de acolher as arestas do esquecimento.
Ou as raízes da névoa quieta
que barram a procura de alguma porta.

Alguma luta se esconde em abril.
Com a lábia livre, com a alegre
esperteza de iludir a frágil fresta.
O vencimento do tardio ódio,
a fraqueza da reza sem milagres.

Há um ventilar de madureza,
de alguém que talvez nem venha
a entrar nalguma névoa,
a pisar nos gozos de alguma nave.
Montado o palanque. A besta imolada.
A gravidez depois fictícia.
Alguém limpa a ferrugem em abril.

@ Salomão Sousa

Maio 25, 2009

Canário na Janela


Muitas abas paralelas
e eu uma delas
Talvez eu fosse o canário
a janela
e tanto não me abro
e tanto não me amarelo

Perdi o Tributo ao Poeta, da Biblioteca Nacional de Brasília, em homenagem à bela poesia de minha amiga Lina Tamega. Imerso no mundo do excesso da comunicação e não tomei conhecimento do evento. Nem email, nem telefonema, nem fofoca de janela, nem sinal digital, nem duas frases nas vastas colunas literárias dos jornais de Brasília. E a poesia da Lina tem mais para dizer do que duas linhas.

Ai! quantos anos terei de viver para terminar a leitura de las Memorias de Ultratumba, do Chateaubriand francês?

Mas não era nada disso que eu queria dizer para vocês. Ou para mim. Ou para ninguém. Num blog a gente nunca sabe a quem diz, a quem fala. Ou a quem cala.

Só queria lembrar o lado humano, dentro de minha descrença diante de uma juventude que perdeu toda possibilidade de lidar com o humanismo.

Assisti o filme Faces, de Cassavetes, de 1968. Há muito um filme não me entristecia tanto. Há quarenta anos, talvez com consciência ou por um condão, Cassavetes teve a mágica de enxergar nossos dias. A desagregação dos valores. O fim do pudor. Só mesmo o canário para amarelar.

Ainda tem mais. Uma citação de Bertrand Russell, tirada de uma citação de Chomsky:

"Aqueles cujas vidas dão frutos para si mesmos, para seus amigos ou para o mundo são inspirados pela esperança e sustentados pela alçegria: eles veem em sua imaginação as coisas que podem vir a ser e o modo como se materializam. Em suas relações privadas, não se angustiam com uma possível perda de afeto e respeito, assim a recompensa chega por si mesma, sem que a procurem. No trabalho, não são assombrados pela inveja dos concorrentes, mas estão, isto sim, preocupados com o que tem de ser feito. Na política, não perdem tempo e paixão defendendo privilégios injustos de sua classe ou nação, mas almejam fazer do mundo um lugar mais feliz, menos cruel, menos cheio de conflitos entre cobiças rivais e mais povoado por seres humanos cujo crescimento não tenha sido tolhido e atrofiado pela opressão."

De quantos Bertrand Russell precisamos? E nesta geração não teremos outro e muito menos jovens para lê-lo!

A única esperança, Chomsky, é de que realmente o que vemos azul hoje possa ser visto verde amanhã.

Maio 10, 2009

Clara Ghimel

O acaso do acaso, caiu-me um disco nas mãos assim a Oriente do oriente. De Clara Ghimel — acredito que baiana. Ela reuniu poemas de portugueses, em arranjos bem percussivos, apesar de muitas guitarras acústicas leves. A voz clara que permite realce aos versos.

Apenas um comentário: ao primeiro verso do poemas "Pirata", de Sophia de Mello Brayner Andrade:

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Não é algo imensamente assustador?
Não sei se é a sabedoria do poeta ou se já é o toque do egocentrismo sobre o homem que antecede o poeta. Assusto-me quando essas sobreposições acontecem. Antes, a força da natureza intimidava e a força do homem existia para dominá-la. Agora, sem força e sem domínio, mas apenas incendido de desprezo, o homem já se julga de posse de tudo — com desprezo.

Clara, parabens!

Abril 21, 2009

A vida é sonho

DEIXO AQUI MINHA PRIMEIRA TENTATIVA de tradução da parte famosíssima da peça de Pedro Calderon de la Barca. Busquei manter a rima e o andamento dos versos. Não quero rivalizar com a tradução de Renata Pallotini (ver edição da Hedra), que modernizou alguns versos e furou umas duas rimas. Acredito que, para melhor compreensão da fala de Segismundo, é necessário sempre citar o fecho da fala anterior de Clotaldo, pois é deste fecho que surge todo o razoamento posterior:

Clotaldo

(...) ainda em sonhos
não se perde em fazer bem.

Segismundo

Certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois talvez ainda sonhamos.
E assim faremos, se estamos
em mundo tão singular
que viver não é mais que sonhar,
e a experiência, risonha,
diz que o homem que vive sonha
aquilo que é até despertar.
Sonha o rei que é rei, e vive
com este engano mandando,
dispondo e governando;
e aquele aplauso, que, breve,
recebe, no vento se escreve
e em cinzas o converte
a morte: desgraça forte!
Existe quem tente reinar
vendo que irá despertar
dentro do sonho da morte!
Sonha o rico em sua riqueza,
que mais zelos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e sua pobreza;
sonha o que inicia a destreza;
sonha o que afana e pretende;
sonha o que agrava e ofende;
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
e que é assim ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
destes grilhões carregado
e sonhei que em estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida?: um frenesi.
Que é a vida?: uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
e o maior bem é bisonho,
que toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.

Abril 20, 2009

O sempre novo Clint Eastwood! Ah razão cínica

Clint Eastwood declarou que Gran Torino, seu mais recente filme, é sobre a tolerância. Mas é bem mais do que a tolerância, pois envolve questões raciais, de violência com a juventude, da dívida americana com aqueles que foram atingidos por suas invasões. A degringolada da família. Ele vem nos dizer que alguém precisa estar pronto para morrer para ver se a coisa muda. Trata-se de um filme que tem de virar cardápio do debate em sala de aula e nos comícios públicos. Trata-se de um filme que me faz voltar a refletir sobre a importância da realidade na obra de arte. Até onde a obra de arte tem de estar associada ou dissociada da realidade? Clint Eastwood sempre está dentro da realidade, com a sua obra (de grande arte).
Como serve para mim e mais e demais, registro aqui um trecho da obra de Bertrand Russell:

"Aqueles cujas vidas dão frutos para si mesmos, para seus amigos ou para o mundo são inspirados pela esperança e sustentatos pela alegria: eles veem em sua imaginação as coisas que podem vir a ser e o modo como se materalizam. Em suas relações privadas, não se angustiam com uma possível perda de afeto e respeito, preferem dar afeto e respeitar de maneira livre, assim a recompensa chega por si mesma, sem que a procurem. No trabalho, não são assombrados pela inveja dos concorrentes, mas estão, isto sim, preocupados com o que tem de ser feito. Na política, não perdem tempo e paixão defendendo privilégios injustos de sua classe ou nação, mas almejam fazer do mundo um lugar mais feliz, menos cruel, menos cheio de conflitos entre cobiças rivais e mais povoado por seres humanos cujo crescimento não tenha sido tolhido pela opressão."

Ah Boaventura! que diz mais: a "razão cínica" justifica toda artimanha de privilégios.

Abril 18, 2009


Sempre há um clássico que ainda não foi traduzido em nossa língua. Sobretudo aqueles com maiores extensões. Certamente ainda teremos de esperar muito pelas Memórias de Chateubriand, pela biografia de Samuel Johnson, por Boswell, e as próprias biografias de escritores, de Samuel Johnson. Enquanto isso, valho-me das edições espanholas. No ano passado, ou antes, não estou seguro, circulou por aqui Peregrinação, do português Fernão Mendes Pinto.O mercado editorial brasileiro se preocupa demais com obras já consagrados em nossa cultura (caso de Tolstoi, Dostoievski, Kafka etc, se é que grandes escritores são etc), e outros também relevantes não estão nas prateleiras. Nem as Confissões, de Rousseau estão nas prateleiras — e precisam de tradução nova, que correspondam, pois as frases curtas de Rachel de Queiroz, numa linguagem nordestina, não corresponde à elegância do período da obra.
E temos de baixar o preço dos livros! O privilégio das grandes editoras às grandes redes estão matando as pequenas livrarias. E isso é um tiro no pé: as pequenas livrarias ajudam na formação de leitores, pois elas ficam ao lado das casas, no caminho das pessoas, com um amigo no balcão... Quanto mais leitores melhor para todos, inclusive para a qualidade da cidadania.
Não há cidadania em deixar a carreta na entrada de acesso à via.
Mas, enquanto isso, não há cidadania em não contribuir com a divulgação da série de tributos ao poeta, promovidos pela Biblioteca Nacional de Brasília.
A próxima homenagem é dedicada a Ronaldo Costa Fernandes, por Paulo José Cunha, no dia 24 de abril, às 19h. Se os meios de comunicação não tiverem os telefones da Biblioteca, e dos escritores para os contatos, é só me procurar por este blog, e eu passarei com o maior prazer.
Bom feriado a todos nós, com poesia e cidadania.
Já que os blogs têm registrados divergências com o novo romance de Chico Buarque, eu também assim procedo. Chico Buarque tem todo direito de escrever um romance ruim, até memso para não ficar ocioso, manter a vida em operandi. Mas que o romance não funciona, não funciona. Não tem leimotiv, não tem qualidade estilística, e nem mesmo... Basta. Sei que há muito eu não interrompia a leitura de um livro. O leite está derramado.Mas, a música, só se expande.

Abril 15, 2009

Brasigois Felicio

Após receber a nossa tradução de FROST,
o amigo Brasigóis felício fez uma paráfrase
do poema A estrada por trilhar:


Seguir os caminhos do conhecido
é afogar no comido
fingindo ser renovo
aprender o sabido

Seguir a senda estreita
é habitar-se do inaudito
vazio-cheio do Absoluto

Se Deus é um longo intervalo,
não há música sem silêncio

No contentamento de aceitar e celebrar
viajam os que são leves de bagagem
por isto passam e esquecem

Aceitar o agora que nos veio
sem forçá-lo a nos oferecer respostas
pode fazer toda a diferença.

Abril 11, 2009

Volta ao médico

Retornei a médico para complementar os exames com uma colonoscopia.
Canais limpos, abertos pela injeção de ar. Apenas dois pequenos sangramentos talvez provocados pela teimosia da sonda. Duas horas de cólicas, mas a tranquilidade de seguir com um intestino saudável, colorido, redondo como uma foto de lua em torno do escuro.

Abril 02, 2009

Um amigo do Ronaldo Costa Fernandes pediu informações sobre a existência de livros com traduções de Robert Frost. Chegamos a localizar uma tese que identifica todas as traduções de Frost que já foram feitas para português, além de trazer traduções próprias. Dei uma mexida na tradução do poema "A estrada sem trilhar", que sempre recebeu outros títulos. Não dei preferência às rimas, mas uma certa repetição interna. Vamos ver se alguém gosta.

A ESTRADA SEM TRILHAR

Robert Frost

As estradas se abriam no bosque amarelo
e eu lamentava não seguir as duas,
por ser um viajante só, demorei-me
a olhar à distância por longo tempo
a que sumia ao dobrar-se no matagal.

Quando tomei a outra, igualmente bela,
aos seus méritos a pedir desculpas;
para o viajante oferecia relva;
ainda que por ali tenham passado
outros mais que a tomassem na viagem.

Naquela manhã elas se estendiam
com as folhas sem manchas de pegadas.
Ah! guardei a primeira para outro dia,
ciente que uma estrada leva a outra
duvidei se ali outra vez retornaria.

Vou contando isso entre suspiros,
em distante ano num lugar distante:
duas estradas se bifurcavam, e eu —
uma estava sem trilhar e esta eu tomei
e foi o que fez toda a diferença.

Março 13, 2009

Algumas informações esparsas. Estive no médico na tarde desta sexta-feira. Se eu fosse romancista ou contista, criava um personagens e construía uma narrativa com as hemorróidas luminosas em sangue. Lembro-me de meu avô fazendo, às escondidas, as suas lavagens na bacia de flandres. Estive sobre a maca em posição fetal, e agora preciso fazer menos leituras enquanto permanecer no sanitário.
Não consegui ainda iniciar a leitura da História do império, de Tobias Monteiro, na edição da Itatiaia. Fiz a encomenda pela Livraria da Rodoviária, mas os distribuidores não têm mais interesse em fazer entregas para as pequenas livrarias. São mais de vinte dias e não consigo ser atendido. Só as grandes redes conseguem atendimento rápido, pois são tratados com prioridade e com bons descontos. Precisamos de estudos para reversão deste quadro, pois as livrarias pequenas não poder ser extintas e ainda outras precisam ser motivadas a surgir.
Terminei a leitura da novela Terra sonâmbula, de Mia Couto. Não me agrada o excesso de inversões vocabulares do moçambicano, nem o excesso de neologismos para surgimento de verbos já existentes. Mas é uma narrativa preciosa em que o próprio texto se cristaliza em poeticidade. Moçambique aparece com todas as suas contradições. Realmente a literatura não existe sem o real.
Refiz um verso de minha tradução de Antonio Machado. Pois "marcas dos pés" deve ser substituído por "pegadas". Algumas de minhas traduções saem neste domingo no Jornal Opção, conforme promete o poeta Carlos Willian.

PROVÉRBIOS E CANTARES XXIX

Antonio Machado

Caminhante, são teus rastros
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
o caminho se faz ao andar.
Ao andar se faz o caminho,
e ao voltar o olhar para trás
vê-se a trilha que nunca
mais há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho
mas só pegadas no mar.